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O diálogo e a história que nos unem

O diálogo e a história que nos unem
junho 09
12:35 2016

“Não pensamos em nada porque aqui nós vivemos o diálogo; vivemos como irmãos”, respondeu de maneira sincera e objetiva a um dos jovens que estavam na Mesquita Habib-i Neccar, a mais antiga da Turquia, construída em 636 d.C., na região da Anatólia, mais precisamente em Hata , atual província com pouco mais de 1,5 milhão de habitantes, ao sul da Turquia, na fronteira com a Síria. O jovem fora questionado sobre quais atividades o grupo que ele acompanhava costumava realizar em prol do diálogo inter-religioso, sendo que Hata é conhecida por ser referência nessa questão.

A resposta do jovem condiz com a realidade. Quem caminha, não somente por Hata , mas em várias cidades na Turquia, encontrará indícios de convívio pacífico e fraterno. “As crianças, por exemplo, estudam e brincam juntas; a maioria nem sabe a religião da outra, elas convivem naturalmente, por mais que a maioria seja muçulmana”, explicou Fatih Ugur Ozorpak, natural de Istambul.

Apenas contextualizando você, leitor, acerca desta matéria sobre diálogo inter-religioso, o repórter que vos escreve ficou doze dias na Turquia, junto com algumas lideranças que trabalham com o diálogo inter-religioso em São Paulo, a convite do Movimento Hizmet, fundado na década de 1960 por Muhammed Fethullah Gülen.

Os lugares visitados foram berços, inclusive, dos impérios Romano, Bizantino e Otomano. “Vimos que os lugares sagrados são protegidos por muçulmanos que se alegram em poder nos levar a um lugar cristão e contar toda história”, afirmou Cláudio Santos, diretor do Centro Islâmico e de Diálogo Inter-religioso e Intercultural (CIDI).

Quem vai à Turquia, por mais que tenha a historicidade aguçada no que tange aos lugares daquele país, é passível de se extasiar quando se vir diante de uma realidade com valores históricos, culturais, arquitetônicos e religiosos inenarráveis.

A região na qual, desde 29 de outubro de 1923, está situada a República da Turquia é de valorosa importância para a história do cristianismo e para a história da humanidade como um todo. Você conhecerá alguns lugares nas edições de maio e junho da revista Ave Maria. Lembrando que a maioria está alicerçada em tradições milenares, orais ou escritas.

A importância da Turquia para o cristianismo

São inúmeros os fatores que fazem da Turquia a precursora do cristianismo. A começar pelo primeiro século, principalmente com a localização das sete igrejas da Ásia Menor descritas no livro do Apocalipse, onde foram enviadas as revelações de João Evangelista: Éfeso (Ap 2,1-8); Esmirna (Ap 2,8-12); Pérgamo (Ap 2,12-18); Tiatira (Ap 2,18-29); Sardes (Ap 3,1-7); Filadélfia (Ap 3,7-14) e Laodiceia (Ap 3,14-22).

Os primeiros concílios ecumênicos foram realizados na atual Turquia: Niceia I (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431), Calcedônia (451), Constantinopla II (553), Constantinopla III (680-681), Niceia II (787) e Constantinopla IV (869-870).

Em entrevista à revista Ave Maria, o Pe. Danilo Mondone, sj, professor de História do Cristianismo na Faculdade São Bento, relata que até o século III a Igreja cristã foi duramente perseguida e muitas vezes teve que viver na clandestinidade. Esse período foi considerado como a época dos mártires, por seus testemunhos de permanência na religião contra um império hostil. “Daí entendemos a frase de São Cipriano, que afirmava: ‘Fora da igreja não há salvação’. Esta frase deve ser compreendida dentro do seu contexto, ou seja, nós estamos aqui nos esforçando bastante para sermos cristãos num império que é contra a gente”.

Museu Santa Sofia

Passando pela praça Sultanahmet (antiga praça do Hipódromo) já se avistam dois imponentes monumentos de Istambul (antiga da Constantinopla): o Museu Santa Sofia e a Mesquita Azul, que ficam de frente um para o outro e recebem diariamente mais de 2 mil visitantes e mais de 6 milhões durante o ano. Originalmente dedicada na época do Império Romano, em 360 d.C., a Igreja de Santa Sofia foi o principal local de oração dos cristãos em Constantinopla. Ela foi destruída em dois momentos de sua história em virtude de tumultos. A então Basílica Santa Sofia foi reerguida em 537, época do Império Bizantino, e continuou sendo a catedral de Constantinopla. Em 1453 foi transformada em mesquita pelo Império Otomano, que conquistara o controle de Constantinopla. A partir daí sua identidade cristã, principalmente os afrescos, foram encobertos ou removidos e traços muçulmanos acrescidos. Após a proclamação da República Turca, Constantinopla tornou-se Istambul e a mesquita foi extinta, reabrindo em 1935 como museu. Hoje no Museu Santa Sofia são encontradas algumas características cristãs, expressas nos mosaicos e afrescos, e outras islâmicas, nas inscrições de versos do Alcorão sagrado que decoram o prédio.

Os cristãos são chamados de cristãos pela primeira vez

“E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez chamados cristãos” (Atos 11,26). Um dos lugares mais importantes para o cristianismo fica na cidade de Antioquia (Antakya), província de Hata, onde está localizada a Igreja dedicada ao Apóstolo Pedro, considerada a mais antiga do mundo; uma pequena igreja-caverna, que atualmente funciona como museu. Nela, mantém-se conservada boa parte da sua originalidade, inclusive a pia batismal: uma cavidade semicircular com cerca de 1 m² de diâmetro, no lado direito do altar. Estiveram nessa igreja os Apóstolos Pedro, Paulo e Barnabé. Antioquia no passado foi um dos cinco patriarcados (pentarquia) junto com Jerusalém, Roma, Alexandria e Constantinopla.

Casa da Virgem Maria

É quase impossível expressar em palavras a emoção que senti ao entrar na casa que, segundo a tradição cristã, Maria passou os últimos dias de sua vida terrena. Era manhã de domingo ensolarado, céu azul, quase sem nuvens. Fazia muito frio e ventava bastante, mas o meu coração exultava de alegria!

O Evangelho de São João nos recorda as palavras de Jesus, no momento de sua crucificação: “Quando Jesus viu sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que Ele amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí o seu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí a sua mãe’. E desde essa hora o discípulo a recebeu em casa” (João 19,16-27)”.

Sabe-se que após a crucificação de Jesus seus seguidores foram perseguidos, inclusive Maria e São João Evangelista, atendendo à recomendação de Jesus, levou-a para um lugar seguro.

Nessa viagem e peregrinando por esse lugar, caminhamos até o suposto local, a Casa da Virgem Maria, que fica no cume do monte Coresus, localizado a cerca de 9 km do centro de Éfeso (atual cidade de Izmir), no sudoeste da Turquia, distante 600 km ao sul de Istambul. Bem próximo à casa, um enorme muro impressiona pela quantidade de pedidos e agradecimentos deixados pelos fiéis em retalhos de pano. Outros elementos que igualmente chamam a atenção são as pequenas grutas com fontes de água, que muitos acreditam ser milagrosas.

Na entrada da singela casa de pedra há um quadro com a imagem da beata alemã Anna Katharina Emmerick (1774-1824), a qual teve uma revelação de que lá seria o local onde Maria vivera. O fundo da casa tem um altar com a imagem da Virgem Maria ao centro. O Papa Leão XXIII se pronunciou favorável sobre essa provável moradia de Maria. A casa foi visitada pelo Papa Paulo VI, em 1967, por São João Paulo II, em 1979, e pelo Papa Emérito Bento VI, em 2006.

A Casa da Virgem Maria atualmente é local de peregrinação de cristãos e também dos muçulmanos, que a cultuam como a mãe de um grande profeta, Jesus. No Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, Maria (Máriam) é mencionada 34 vezes em doze capítulos, além de lhe ser dedicado um capítulo inteiro (19o) de 98 versículos. Não muito distante dessa casa, ainda na cidade de Izmir, visitamos as ruínas da Basílica de São João, local de constante visitação e onde, segundo a tradição cristã, o evangelista foi sepultado. A viagem proporcionou, além dos conhecimentos históricos e culturais, um reavivamento da fé e a importante reflexão de quão edificante pode ser o diálogo inter-religioso como semente da paz.

Diego Monteiro

Fonte: Revista Ave Maria de maio de 2016 www.avemaria.com.br

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