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Istambul, uma antiga paixão

Istambul, uma antiga paixão
abril 04
10:27 2016
No aeroporto de Milão, aguardava ansiosa o nosso voo para Istambul, cidade que conheci há mais de 20 anos – única no mundo situada entre dois continentes. Fascinante e bela, em uma mistura de Oriente e Ocidente, onde o antigo e o moderno convivem harmonicamente. Cidade que desde sempre me cativou.

Ao chegar, surpreendi-me com o desenvolvimento crescente. Parecia estar em outra localidade… Antes desorganizada, trânsito caótico… Emaranhados de fios, no lado externo das casas, chamavam-me a atenção, e as rezas no fim da tarde, no meio das ruas, me fascinavam. Mulheres com vestes negras, muitas cobertas de véus, tudo muito diverso e atraente aos olhos de uma brasileira. Encontro um trânsito ordenado, ruas limpas, parques floridos, uma cidade moderna… Vejo que a confusão havia melhorado absurdamente, e o fascínio que a cidade exercia sobre mim continuava o de sempre.

A guia de nome “Sevda” nos recebe com um sorriso largo e uma imensa necessidade de falar. Conta-nos um pouco da história de sua cidade, que, com 2.500 anos, foi a capital dos impérios Romano, Bizantino e Otomano. Retiro do baú minhas aulas de história em que estudávamos a região. De grande importância geopolítica, era ambicionada por todos e, por isso, palco de muitas guerras.

Sevda diz que a população atual de Istambul beira os 16 milhões de habitantes. Banhada pelas águas do estreito de Bósforo, trata-se de uma cidade cosmopolita, importante centro de negócios, mesclando história com modernidade. Percebo que minhas filhas, feito eu há mais de 20 anos, também se encantaram por ela.

Caminhamos pela famosa praça de Taksim, palco de inúmeros protestos e manifestações no ano passado. Na rua Istiklal, reservada aos pedestres, cortada apenas por um bondinho decadente, tomamos café e nos servimos dos tradicionais doces turcos, uma mistura de gelatina dura com pistache. Turcos adoram doces, e, para qualquer lado que olhamos, somos rodeados por eles, expostos em prateleiras e a nós oferecidos em bandejas. Provava de todos. Menos mal que, como boa turista, caminhava bastante, sob um sol escaldante que a todo instante me obrigava a recarregar-me de água.

Nossa guia é meio louca e se transforma ao falar de política. Metade do seu tempo passou xingando o primeiro-ministro e seu “governo corrupto”. “Um que quer transformar a Turquia num Irã ou numa Arábia Saudita. Retrógrado e usando a prerrogativa da religião, tenta impor leis de orientação islâmica ao país, deseja ver as mulheres de véu, principalmente nas mesquitas, onde voltou a ser obrigatoriedade; quer um Estado teocrático…”

Feminista, Sevda não aceita essas condições. Também nos fala dos curdos de maneira negativa. “Pintam eles como coitadinhos, mas não são coitadinhos, entendem?” Concordo com tudo, pois não quero criar polêmicas, a mulher é um furacão de protestos, apesar da aparência frágil e do jeito doce. Vegetariana e defensora da causa dos animais, cria dez gatos, a maioria encontrada na rua. Xinga o governo de novo, que não se importa com os animais abandonados, xinga quem os abandona, xinga quem os maltrata… E numa misturada de assuntos, xinga também as privatizações ocorridas no país.

Para finalizar seu repertório de lamentações, recrimina o ramadã. “Vocês acham certo uma pessoa passar 19 horas sem se alimentar e sem beber água? Tudo por causa de religião?” Indignada, nos mostra um amigo seu, porteiro de um museu que visitamos, praticante do ramadã.

“Imagina… Nesse calor todo, há mais de sete horas em pé, sem comer e sem beber, vocês acham isso certo?” Evito entrar na discussão, questões culturais e religiosas, por mais absurdas que nos pareçam, devem ser respeitadas.

Olho pro rapaz na porta, que com um sorriso na face não me parece sofrer.

Interesso-me pelo ramadã, vejo que muitos muçulmanos o seguem à risca. Segundo nossa guia, somente crianças, grávidas, idosos e doentes são liberados de praticá-lo.

Leio em um artigo que “o mês de ramadã foi aquele em que se revelou o Alcorão. Trata-se de um tempo especial, em que os muçulmanos se reúnem em oração. O jejum é feito por cerca de 29 dias entre o nascer e o pôr do sol. É um tempo de renovação da fé, da prática da caridade e de vivência profunda da fraternidade e dos valores da vida familiar, de abster-se, desde o raiar da aurora (oração da alvorada) até o pôr do sol (oração do crepúsculo), da ingestão de qualquer espécie de alimentos e bebidas, assim como de fumar e manter relações sexuais.

“O jejuador vive no ramadã um passeio espiritual no jardim do Alcorão Sagrado, cultivando ao recitá-lo, respirando o aroma de seus versículos, orientando-se com sua luz, adornando-se com sua moral, agindo dentro de seus preceitos, buscando tranquilidade que é abrigo para a sua alma, tendo se encontrado, retirando sua alma da escuridão e da ignorância da matéria.”

Descubro que, acima do “sacrifício”, existe uma grande sublimidade. E que, apesar de eu não compreendê-lo bem, ele merece o nosso respeito.

Contaminada pela energia da cidade que pulsa, caminho por suas ruas, vielas, mesquitas, museus… E me encanto cada vez mais.

Laura Medioli

PUBLICADO EM 17/07/14 – 03h30

 

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