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A posição estranha dos curdos na eleição presidencial da Turquia

A posição estranha dos curdos na eleição presidencial da Turquia
junho 14
15:56 2018

Aa eleição de 24 de junho da Turquia são provavelmente as mais críticas na história política dos últimos 40 anos do país. O referendo constitucional de 2017 definiu o novo sistema presidencial de governo que substituirá o atual sistema parlamentar e é o que sob o qual os vencedores das urnas presidenciais e parlamentares reunidas governarão pelos próximos cinco anos.

Espera-se que o novo presidente resolva várias questões difíceis, sobre as quais está a economia que desmorona. Contudo, outras questões também pressionam, tais como: a política externa da Turquia face-a-face às suas relações desgastadas com os EUA e também com a União Europeia (UE), a polarização profunda da sociedade turca e da questão curda. Em relação à última, existe uma gama interessante de aproximações pré-eleição entre os candidatos não-curdos. O que faz isso ainda mais interessante, é que todas as entidades políticas que apoiam os três principais candidatos presidenciais travaram guerras contra os curdos da Turquia no passado; as mesmas pessoas cujos votos estão tentando assegurar hoje.

R.T. Erdogan

O Presidente Erdogan viajou através do espectro a respeito da questão curda nos últimos 16 anos de seu regime. Ele foi de aceitar publicamente a existência da questão curda e rejeitar a aproximação militar, beco-sem-saída, com décadas de existência, dos partidos kemalistas, a dispensar todos os esforços para uma solução da questão curda, terminando o cessar-fogo com o PKK em 2015 e rejeitando a própria existência da mesma questão pela qual culpou todos os governos anteriores a 2002 de não fazerem o suficiente para a solucionar. Em 6 de janeiro de 2016, em um discurso que fez a muhtares no palácio presidencial, ele declarou que o AKP estava fechado à questão desde 2005. “Não mais existe um problema [curdo] na Turquia. Encerramos essa questão em Diyarbakir em 2005. Existe um problema de terrorismo na Turquia”.

Suas táticas foram aparentemente pró-curdos enquanto o voto curdo era o alvo e assim que o custo deste em apoio nacionalista aumentou, ele rejeitou os curdos e se voltou para o nacionalistas do MHP, em uma aliança que praticamente fundiu os dois partidos. Ele começou a apertar as coisas para os parlamentares do HDP desde o colapso de 2015 de um cessar fogo com o ilegal Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), e vários deles ainda estão na cadeia hoje em dia, incluindo os antigos líderes do HDP S. Demirtas e F. Yuksekdag. Os promotores acusaram as autoridades eleitas com ofensas de terrorismo e os ligaram ao PKK, enquanto que vários prefeitos e outras autoridades locais foram substituídos por administradores nomeados pelo governo central em Ancara. Esse foi o fim de uma política que Kerem Oktem chamou de “gerenciamento pragmático de problemas, mal-compreendido por muitos como um grande relaxamento na política curda preocupada com a segurança da Turquia.

Em 6 de junho, o presidente reiterou sua declaração passada, de que não existe uma questão curda. “Nós não dizemos que não existem curdos, dizemos que não existe um problema curdo,” disse Erdogan e elaborou que ninguém deve estar procurando por um estado para os curdos da Turquia. “O estado dos curdos é o estado da República Turca” disse ele.

As manobras políticas de Erdogan afetaram também as populações curdas em países vizinhos, especialmente a Síria e o Iraque, que certamente sairá pela culatra se ele tentar uma abertura política com os curdos. O posicionamento notório de Ancara para com a guerra civil síria e Estado Islâmico nas partes habitadas por curdos do país causou indignação entre os curdos da Turquia, enquanto que a invasão de 2018 de Afrin e as ameaças contra Manbij foram a gota d’água.

O referendo da independência de 2017 da KRG foi o ponto de virada nas relações entre Ancara e Erbil que despencaram, apesar de Barzani ser o aliado regional mais próximo de Ancara aos custos de prejudicar suas relações com Bagdá. Ancara ficou do lado do governo do Iraque na tentativa deste de impor sua autoridade federal sobre a região do Curdistão enquanto que Erdogan deu a entender que a Turquia poderia desencadear uma operação no norte do Iraque, semelhante ao ‘Escudo do Eufrates’ no norte da Síria, voltada aos militantes curdos

Em geral, o Presidente Erdogan está focado em assegurar o apoio nacionalista e nos últimos três anos ele trabalhou rigorosamente para enfraquecer o poder político curdo, tanto dentro quanto fora do país. Ele não deixou espaço para dúvidas quanto às suas intenções em como lida com os votos curdos, portanto não há razões para que os curdos o apoiem

M. Aksener

Meral Aksener, uma ex-membro do MHP e ex-ministra do DYP, é a líder do recém-formado Partido Iyi, uma ramificação do nacionalista MHP que foi fundada em 2017 principalmente por membros desgostosos do partido de Bahceli. O Partido Iyi é um partido conservador liberal e secularista e nacionalista que adere aos princípios de Mustafa Kemal e segue uma ideologia política centrista. O mandato de Aksener como a Ministra do Interior do DYP em 1995-6, foi durante um período muito pobre a respeito de violações estatais de direitos humanos no sudeste da Turquia, enquanto que os eleitores curdos sempre foram cautelosos com políticos nacionalistas. Irrestrito de ela insistir que seu partido está aberto a todas as identidades, a tarefa de Aksener é convencer os eleitores curdos a apoiarem ela, é no mínimo muito acentuada.

Além de falar em termos genéricos sobre respeitar os direitos dos grupos de minoria e preservar a identidade da nação, ele não tem se referido muito a planos específicos sobre resolver a questão curda. Parece um tanto improvável que os curdos da Turquia a apoiarão.

M. Ince

O candidato do CHP, Muharrem Ince, que é considerado o principal desafiante de Erdogan na eleição presidencial, aceitou em 10 de maio em seu comício de eleição em Hakkari, que existe um problema curdo na Turquia e pediu pela soltura do ex-líder do HDP, Selahattin Demirtas, que é curdo. Ele também enfatizou que havia se oposto à suspensão das imunidades legislativas em 2016, o que levou ao encarceramento de parlamentares do HDP e ele também criticou a influência do presidente no judiciário.

Ince está tentando aumentar sua influência sobre o segmento curdo da sociedade, algo que seria considerado praticamente impossível sob condições normais, dada o legado do CHP na questão curda e o fato que a maioria de seus legisladores apoiou a ação do AKP de retirar dos parlamentares a imunidade a processos em 2016, essencialmente voltada ao HDP. Ince, contudo, poderia apresentar uma exceção notável, já que ele focou na questão curda — oposto a Meral Aksener. Depois de se distanciar da decisão de seu partido quanto à suspensão da imunidade parlamentar, ele permaneceu um crítico aberto do governo do AKP e jurou resolver o problema curdo no parlamento. Em 4 de junho, ele chamou o problema de “uma questão de ética política, e igualmente uma de democratização e liberdade, com aspectos culturais e econômicos”, como uma resposta aos comentários anteriores do presidente de que não existe uma questão curda.

Os curdos da Turquia estão em uma posição estranha, pois suas opções já são limitadas logo de cara. Contudo, em um possível segundo momento, eles precisarão votar em um dos principais candidatos presidenciais, já que Selahattin Demirtas do HDP não tem possibilidade de ser um dos dois que potencialmente confrontará ao outro em um cenário como esse. É um caso de o menor de três maus, onde o candidato do CHP, Muharrem Ince, parece ter uma vantagem sobre os outros dois, principalmente porque ele é o único que buscou influência ativamente sobre os curdos. Ainda assim, irrestritamente das intenções de Ince, a memória curda do CHP terá o seu papel, portanto a possibilidade de altas taxas de abstenção, especialmente nas províncias do sudeste, parecem prováveis.

Autor: Anthony Derisiotis

Fonte: http://www.platformpj.org/the-kurds-awkward-position-in-turkeys-presidential-election/

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