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O revide de Erdogan

O revide de Erdogan
março 03
11:57 2017
Após rechaçar um golpe de Estado, o presidente turco Erdogan amplia a repressão aos opositores e críticos do regime.
Em 1º de setembro de 2016, a vida de Ahmet e Fatma Özer*, casal de professores de Istambul, mudou drasticamente. Acusados de serem simpatizantes de Fethullah Gülen, foram demitidos. No mesmo dia, Ayse Yilmaz*, estudante de Direito, recebeu um texto informando que seu pai, um funcionário público, havia sido detido por suposto envolvimento em terrorismo e planejamento de golpe. “Foi o dia em que entramos na lista negra”, lembra Fatma. “O dia em que fomos apagados como cidadãos.”

O governo do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP) acusa Gülen, um religioso islâmico que vive nos Estados Unidos, de organizar a tentativa de golpe sangrenta em 15 de julho. A extensão do envolvimento de Gülen não está, no entanto, clara. De todo modo, aqueles que expressaram a menor simpatia pelas opiniões do clérigo ou que usaram suas empresas, que incluem um banco, escolas e organizações de mídia, viram-se acusados de complô, entre eles as famílias Özer e Yilmaz.

Em 20 de julho do ano passado, o presidente Recep Tayyip Erdogan declarou estado de emergência, que permite que ele e o gabinete do AKP desprezem o Parlamento e governem por decreto. A repressão a possíveis organizadores de golpe foi desde então transformada em uma caça às bruxas, não apenas contra supostos simpatizantes de Gülen, mas também a esquerdistas, curdos e qualquer crítico do governo.

Desde a tentativa de golpe, mais de 125 mil turcos foram demitidos de empregos no governo e mais de 45 mil estão presos sob a acusação de terrorismo, militares e policiais incluídos, e também um grande número de jornalistas, professores e funcionários públicos.

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Ayse Yilmaz se referiu a prisão do pai como o dia em que foram apagados como cidadãos (Greg Baker/ AFP)

Erdogan prometeu várias vezes “erradicar” toda a rede de Gülen e ameaçou reinstaurar a pena de morte e “deixar o povo se vingar”. O presidente, que quer transformar o sistema parlamentar da Turquia em presidencial, por meio de um referendo, tem usado a tentativa de golpe como desculpa para se livrar de todos os críticos indesejáveis.

“Muitos  foram demitidos não porque usaram mal seus cargos, mas por causa da oposição ao AKP e a Erdogan”, diz Andrew Gardner, pesquisador da Turquia na Anistia Internacional. “Se o Estado quiser abrir processos contra os cidadãos, precisa basear-se em provas individuais. Mas o que temos visto são acusações gerais contra as quais os acusados não podem apelar.”

Ahmet Özer concorda. “Não tenho certeza de que exatamente somos acusados”, diz. Ele é professor há mais de uma década. Nem ele nem sua mulher receberam um aviso oficial, uma justificativa ou ordem judicial. Em vez disso, souberam de suas demissões pela internet. “Nossos nomes foram publicados na gazeta oficial. Foi tudo”, afirma Özer. Ambos tinham sido suspensos em agosto. “Não temos meios de nos defender, mas, como nossos nomes hoje estão associados ao terrorismo e à preparação de um golpe, estamos na lista negra.”

Sua mulher salienta que eles se opuseram ao golpe e nunca foram politicamente atuantes. A súbita falta de renda colocou a família Özer em grande dificuldade. Ahmet costumava ser um tutor apreciado, mas os pais não querem mais que seus filhos sejam ensinados por um “terrorista”. Outros estão assustados demais para empregá-lo, temem ser vistos como simpatizantes. Nenhuma escola quer contratá-lo. Ele procura trabalho em fábricas e oficinas têxteis para ganhar algum dinheiro, até agora sem sucesso.

“Toda vez perguntam: ‘Por que você deixou seu emprego de professor?’”, explica. “E, como meu nome está em uma lista acessível ao público, não adianta mentir. Até agora não consegui encontrar nenhum trabalho.” 

Gardner salienta que ser demitido por decreto não apenas significa a perda do emprego, mas potencialmente a perda total de oportunidades de trabalho. “Devido aos decretos, os policiais demitidos são proibidos de trabalhar em segurança privada. Os juízes e promotores expulsos são impedidos de atuar como advogados particulares.” As empresas têm medo de contratar supostos seguidores de Gülen.

Os Özer sabem que, comparativamente, tiveram sorte. Seus pais conseguiram ajudá-los financeiramente, ao menos por algum tempo. Mas esse dinheiro também não é seguro. “É possível que o governo congele nossos bens a qualquer momento”, diz Ahmet. O casal hoje utiliza apenas dinheiro vivo, com medo de depositá-lo em sua conta bancária, para que não seja confiscado sem advertência. Isso aconteceu com outros, dizem eles.

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Quem não foi preso perdeu o emprego e não consegue recolocação (Depo/ Zuma Wire/ FotoArena)

O sindicato de juízes e promotores abriu uma conta de doações para integrantes cujos ativos e contas bancárias foram confiscados do dia para a noite e deixaram famílias inteiras sem um tostão. “Juízes passando fome, imaginem só”, sussurra Fatma. “Mas isso também é realidade na Turquia.”

Para os demitidos ou presos sob a acusação de integrar a rede de Gülen, não é fácil conseguir advogados. Muitos, incluídos aqueles da defesa pública, se recusam a assumir seus casos, ou por sentimentos revanchistas ou porque parece perigoso demais defender inimigos do governo no clima atual. Alguns relataram ameaças por aceitar esses casos. Outros advogados que aceitam tais casos trabalham em troca de honorários “astronômicos”, segundo um ativista de direitos humanos. A família Özer não pode pagar por essa assistência jurídica. “Há um verdadeiro mercado negro hoje”, diz Ahmet. “Esses advogados pedem centenas de milhares de liras. Para nós é impossível.”

O pai de Yilmaz está na cadeia há quase seis meses. Não há indiciamento. O caso é secreto, segundo disseram ao advogado. “Eles perguntaram se ele ficou em um dormitório gülenista, se recebeu bolsa de estudos na época da faculdade”, explica ela. “O advogado não pode apelar contra um caso do qual não recebe informações.”

A coisa mais difícil para seu pai, um funcionário público há mais de 20 anos, é não saber o que ele pode ter feito para merecer a prisão. Sob o regime de emergência, os detidos podem ficar sem acesso a advogados por até cinco dias e os advogados não têm o direito de falar com seus clientes em particular. “Eles gravam todas as conversas e as enviam ao promotor”, explica Yilmaz. “Um guarda está presente durante cada consulta na prisão.” Isso, salienta Gardner, impede o direito a um julgamento justo e que as vítimas denunciem a seus advogados torturas e maus-tratos. Grupos de direitos humanos como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch documentaram tais práticas nas prisões turcas.

“Cada vez que um novo decreto de emergência é publicado, eu entro em pânico”, diz ela. “Cada vez que a campainha da porta toca, temo que seja a polícia que veio levar minha mãe também.” Segundo Yilmaz, tudo que sua família sabe é que uma testemunha secreta afirmou que seu pai pertencia à rede de Gülen. “Mas os promotores dizem aos acusados que, se delatarem nomes, sairão da prisão. Meu pai ouviu que não sairá da cadeia se não entregar alguns nomes. Os acusados tornam-se informantes para se salvar.”

A mídia turca relatou casos de rivais nos negócios, admiradores rejeitados e cônjuges enraivecidos que denunciaram alguém para se vingar.

Pouco mais de três meses após sua demissão, a seguridade social dos Özer foi cancelada. Resultou na anulação do seguro-saúde deles e de seus filhos. Não há dinheiro para uma cobertura privada. “O estresse dos últimos meses teve um impacto em minha saúde”, diz Fatma. “Mas sem seguro não posso consultar um médico.” O casal não sabe como o cancelamento da seguridade social afetará suas aposentadorias. Ambos trabalharam e pagaram ao fundo estatal durante mais de uma década. “Ninguém nos dá qualquer informação”, diz Ahmet.

Yilmaz, uma bem-sucedida estudante de Direito, diz que sua confiança no sistema judicial turco praticamente desapareceu. “Minhas crenças e meu idealismo evaporaram”, afirma. “Este é o reinado do medo, não da justiça.” Ela acrescenta que quer ir para o exterior, para viver e trabalhar. “Não quero servir a um país que trata seus cidadãos dessa forma.”

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Fethullah Gulen, exilado nos Estados Unidos, é suspeito de organizar o golpe impedido nas ruas pela população da Turquia (Charles Mostoller/ Reuters/ Zuma Press/ FotoArena)

Para os Özer, a parte mais difícil é a incerteza, o fato de não saber o que fizeram de errado e, portanto, como consertar as coisas. Parentes, amigos e vizinhos deram-lhes as costas. “Bem pior que a falta de emprego e renda é o isolamento completo”, diz Fatma. “Costumávamos receber visitas o tempo todo. Agora, os conhecidos nos abandonaram ou têm medo até para telefonar.” O casal tirou seus filhos da antiga escola, por medo que fossem visados pelos professores e outros alunos.

“O governo não nos trata como cidadãos iguais neste país”, diz Fatma. “Parece que eles querem que a gente simplesmente desapareça. Sinto como se estivesse enterrada viva.”

Por Constanze Letsch, The Observer

Fonte: www.cartacapital.com.br

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