Últimas notícias

O papel da Rússia em impedir o golpe na Turquia

O papel da Rússia em impedir o golpe na Turquia
novembro 10
14:02 2016

Todos nós vimos quem nossos amigos e inimigos são”, disse o presidente turco após a tentativa frustrada de golpe. Ele está se referindo à Rússia.

Sentimentos antiamericanos sempre foram altos entre os turcos céticos. Mas esta é a primeira vez que a campanha antiamericana é encorajada e alimentada pelo governo. O conselheiro do Presidente Recep Tayyip Erdogan, Burhan Kuzu, normalmente inclui palavrões em seus tweets para criticar os EUA, enquanto que ministros questionam constantemente se os EUA são um amigo ou inimigo.

A maioria esmagadora da base de partidários de Erdogan acredita que seu inimigo número um, os gulenistas, seja um projeto criado e financiado pela CIA. A mídia turca está inundada com alegações de que os EUA esteja deliberadamente abrigando Gulen. Não são apenas os islamistas que descarregam sua ira contra os EUA, mas também ultranacionalistas seculares. Dursun Cicek, um legislador de oposição e um ultranacionalista, alegou no mês passado que o movimento Gulen, o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e o ISIS (Estado Islâmico) são usados pelo Ocidente contra a Turquia.

O ministro das relações exteriores turco, Mevlut Cavusoglu, contou a uma televisão russa nesta semana que o público turco vê os EUA negativamente e continuará tendo essa visão a menos que eles extraditem um clérigo muçulmano que recebeu a culpa de arquitetar a tentativa de golpe. “A Rússia nos mostrou que é uma verdadeira amiga pois demonstrou solidariedade em nossa hora mais difícil”, disse o ministro das relações exteriores.

Vladimir Putin, contudo, é um bom amigo de Erdogan. O presidente turco frequentemente chama ele de “degerli dostum” – meu valioso amigo – e louva seu apoio inabalável na face da tentativa de golpe em 15 de julho. Erdogan e seu círculo interno sabem muito bem que Putin não questionará eles se Erdogan reduzir o país a cinzas. Ele não repreende Ancara quanto as suas violações dos direito humanos ou repressão contra a mídia. Enquanto que o Ocidente condenou relutantemente o golpe de 15 de julho, a Rússia foi a primeira a ligar para Erdogan e mostrar sua solidariedade.

Desde a tentativa de golpe, Erdogan e Putin conversaram por telefone por 4 vezes e se encontraram pessoalmente por 3 vezes. Chefes do exército e do serviço de espionagem turcos estiveram em Moscou nesta semana. O chefe do exército russo também visitou a Turquia em agosto, a primeira visita desse tipo em 11 anos.

Essa lua de mel se iniciou conforme o presidente turco estava se preparando para arruinar o golpe em andamento. A Rússia foi crucial em impedir a tentativa de golpe. Eis como as coisas se desdobraram:

Normalmente, um grupo de coronéis e generais forma uma junta, rascunha planos para um golpe e convence o estabelecimento militar a se juntar a eles (se um golpe não for arquitetado pelo próprio estabelecimento militar). O generais do exército normalmente não montam um plano de golpe a menos que consigam que todos se juntem a eles. Para provar este ponto, o ex chefe do exército Ilker Basbug contou a uma comissão parlamentar na quarta-feira que a tentativa de golpe falhou porque o estabelecimento do exército não participou. Erdogan sabia muito bem que a chave para impedir a tentativa de golpe era garantir que nem todos se juntariam ao golpe.

Como parte de seu plano para arruinar o golpe, havia um grupo com quem Erdogan poderia estabelecer uma aliança – o Grupo Perincek. Esse grupo pró-russo possui um vasto número de seguidores entre os militares e a burocracia. Para garantir os apoio deles, Erdogan escreveu uma carta a Putin duas semanas antes do golpe e se desculpou por abater o caça russo.

Quando caiu a noite, o Grupo Perincek disse que eles não fariam parte do complô para o golpe. Com a retirada deles, o plano inteiro ruiu. Para agirem como se não soubessem de nada, a maioria dos comandantes da força foram a um casamento ao mesmo tempo que o golpe se desdobrava. Bulent Bostanoglu, Comandante da Marinha, disse que ficou sabendo da tentativa de golpe às 22:23 quando estava no casamento, quase uma hora depois que a Turquia inteira ficou sabendo. Além disso, os militares disseram que sabiam da rebelião às 4 da tarde daquele dia, 6 horas antes do golpe. Porque um dos mais altos comandantes do exército iria a uma festa de casamento se existe uma situação de vida ou morte no exército? Mais perguntas do que respostas.

Ficou então claro que o Grupo Perincek arruinou a tentativa de golpe, forçando o estabelecimento militar a retirar seu apoio. Alguns comandantes podem ter tentado convencer o chefe do exército, Hulusi Akar, a prosseguir sem o Grupo Perincek. Mas no final, o chefe só exército e os comandantes das forças se recusaram a participar.

No meio tempo, do nada, vários tanques foram manobrados pelas ruas e caças F-16 decolaram para bombardear o Parlamento e ocupar uma ponte. Porque os golpistas ocupariam uma ponte ou bombardeariam uma assembleia nacional em vez de cortarem a internet, prenderem políticos e imporem um toque de recolher – o básico dos golpes? Os generais militares não tão estúpidos para não saberem que não podem efetivamente montar um golpe se todos os militares não apoiá-los. Essas são as questões que precisam ser abordadas.

Erdogan sabe que sem o grupo pró-russo entre os militares turcos, o golpe poderia muito bem ter sido bem sucedido. E ele sabe que o Ocidente, agora, é uma ameaça maior à sua autoridade que seu amigão Putin.

Mahir Zeynalov

Fonte: www.huffingtonpost.com

Artigos relacionados

0 Comentários

Nenhum comentário ainda!

Não há comentários no momento, gostaria de adicionar um?

Escreva um comentário

Escreva um comentário

Deixe uma resposta

Mailer