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Turquia: O golpe que não foi

Turquia: O golpe que não foi
julho 17
16:28 2016

Pelo que se sabe sobre os golpes, a tentativa turca foi um estudo sobre falta de coerência e competência: Nenhuma tentativa séria de capturar ou amordaçar a liderança política existente, nenhum líder pronto para entrar em cena, nenhuma estratégia de comunicação ( ou até consciência das mídias sociais), nenhuma habilidade em mobilizar uma massa crítica dentro tanto das forças armadas ou da sociedade. No lugar dessas coisas um pelotão de desafortunados soldados em uma ponte sobre o Bósforo em Istambul e o aparentemente descoordenado ataque de alguns prédios do governo em Ancara.

Foi o suficiente para o Presidente Recep Tayyip Erdogan, falando através do aplicativo FaceTime em seu celular, convocar apoiadores para as ruas para assim a insurreição se desenrolar. Que Erdogan sem dúvida será o principal beneficiário dessa comoção, usando-a para avançar sua arremetida a uma Turquia islamista autocrática, não significa que ele encenou esse acontecimento. O exército turco permanece isolado da sociedade. É inteiramente plausível que um pequeno círculo de oficiais acreditava que uma sociedade polarizada e insatisfeita se levantaria uma vez dada a deixa. Se acreditavam nisso, estavam errados — e o erro custou mais de 260 vidas.

Mas na Turquia de Erdogan, mistério e instabilidade se tornaram a moeda do reino. Não é de se surpreender que teorias da conspiração sejam abundantes. Desde um revés eleitoral em junho de 2015, o presidente tem gerido uma Turquia que é cada vez mais violenta. Essa perigosa guinada permitiu a ele revidar em uma segunda eleição em novembro e se retratar como o ungido que evitaria o caos total. Sua tentativa de por a culpa, sem nenhuma evidência, da tentativa de golpe sobre Fethullah Gulen, um clérigo muçulmano antigo aliado que vive na Pensilvânia, EUA, forma parte de um padrão de intriga turvo.

Através da neblina de Erdogan, isso parece claro: Mais de 35 anos depois do último golpe, e depois de duas décadas após a intervenção militar de 1997, os turcos não querem retornar a um governo que fica balançando ente o militar e o civil que caracterizou o país entre 1960 e 1980. Pelo contrário, eles estão apegados às suas instituições democráticas e ordem constitucional. O exército, um pilar da ordem secular de Kemal Ataturk, está mais fraco. Cada um dos principais partidos políticos condenou a tentativa de golpe. Seja qual for sua crescente raiva contra o presidente, os turcos não querem o retrocesso.

Um golpe bem sucedido teria sido um desastre. Erdogan possui um apoio massivo no coração da Anatólia, particularmente entre os conservadores religiosos. Mesquitas por todo o país ficaram acesas a noite toda pois os imãs ecoaram a convocação do presidente para que as pessoas saíssem às ruas. Não poderia haver muita dúvida de que qualquer administração controlada pelos militares teria enfrentado uma insurgência de islamistas e outros, semelhante à Síria. O golpe ao que resta no Oriente Médio das instituições democráticas e do Estado de Direito teria sido devastador.

Não é de se admirar que o Presidente dos Estados Unidos Barack Obama e o Secretário de Estado americano, John Kerry, “concordaram que todos os partidos na Turquia devem apoiar o Governo democraticamente eleito da Turquia, demonstrar cautela, e evitar qualquer violência e derramamento de sangue”.

O problema é que “cautela” não faz parte do vocabulário de Erdogan. Conforme Philip Gordon, um ex-Assistente Especial do Obama especializado no Oriente Médio, contou-me: “Ao invés de usar isso como uma oportunidade para curar as divisões na Turquia, Erdogan pode muito bem fazer o oposto: ir atrás dos adversários, limitar a imprensa e outras liberdades ainda mais, e acumular ainda mais poder”. Em uma questão de horas, mais de 2.800 militares foram detidos e 2.745 juízes removidos de seus cargos.

Uma repressão prolongada sobre os assim chamados “gulenistas”, quem quer que Erdogan queira que sejam eles, e sobre o “estado profundo” kemalista (apoiadores da velha ordem secular) é provável. Uma sociedade já dividida se tornará ainda mais rachada. A Turquia secular não esquecerá rapidamente os gritos de “Allahu akbar” que ecoavam na noite passada, vindo de mesquitas e das multidões nas ruas.

Uma rápida investida de Erdogan para reformar a constituição através de um referendo e criar uma presidência com poderes executivos abrangentes é possível. Ele agora tem um caso para dizer que apenas tais poderes conterão os inimigos.

“Pode muito bem ser que a democracia triunfou na Turquia apenas para ser estrangulada em um ritmo mais lento”,  Jonathan Eyal, o diretor internacional do Instituto dos Serviços Unidos Real da Grã-Bretanha, contou-me. Pode haver pouco dúvida de que as expressões de apoio a Erdogan das capitais ocidentais vieram através de dentes serrados.

Para a administração de Obama, os dilemas do Oriente Médio dificilmente poderiam ter sido mais vivamente ilustrados. Quando um general egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, liderou um golpe três anos atrás contro o presidente eleito democraticamente, Mohamed Morsi, Obama não apoiou o governo democrático, assim como ele apoiou agora na Turquia. A administração até evitou o uso da palavra “golpe” no Egito. Na prática, o presidente americano ficou do lado dos generais em nome da ordem.

Verdade, Morsi era profundamente impopular. O golpe egípcio teve apoio massivo. Foi um fato consumado quando Obama entrou em ação. Ainda assim, princípios no Oriente Médio valem pouco. A política frequentemente culmina em escolher a opção menos ruim.

Na Turquia, a menos ruim — a sobrevivência de Erdogan — prevaleceu. Isso não significa que coisas muito piores não virão em seguida. Um golpe que falhou não significa que a democracia é a vencedora. De fato, o prior desse autocrata espinhoso pode ser agora solto sobre a Turquia, com os EUA e seus aliados capazes de fazer pouco a respeito.

Roger Cohen

Fonte: www.nytimes.com

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