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Ataques terroristas ajudam a ofensiva de Erdogan na Turquia

Ataques terroristas ajudam a ofensiva de Erdogan na Turquia
abril 13
11:06 2016

Ao criticar apoio dos EUA e de países europeus a milícias curdas, o presidente da Turquia anteviu o ataque na capital da Bélgica

O discurso do presidente turco Recep Tayyip Erdogan, na última sexta-feira, dia 18, soa hoje quase como um presságio: “Não há razão para a bomba que explodiu em Ancara não explodir em Bruxelas, quando uma oportunidade para se exibir no coração da cidade por apoiadores de organizações terroristas se apresentar, ou em qualquer outra cidade da Europa”, disse ele. Erdogan fazia alusão, no discurso, ao atentado suicida na capital turca do último dia 13, que deixou 37 mortos e dezenas de feridos.

O ataque foi reivindicado pelo grupo militante curdo “Falcões da Liberdade do Curdistão” (TAK), uma dissidência do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), grupo militante separatista e classificado como terrorista pelas autoridades da Turquia.  “Apesar dessa clara realidade, os países europeus não estão prestando atenção, como se estivessem dançando em um campo minado. Você nunca sabe quando vai pisar em uma mina. Mas está claro que este será o fim inevitável”, completou Erdogan.

O ataque de hoje em Bruxelas carrega mais similaridades com outro atentado, ocorrido no último sábado, dia 19, em solo turco, levado a cabo em Istambul, a principal cidade do país. Quatro pessoas morreram e 36 ficaram feridas depois de um homem-bomba explodir seus dispositivos no boulevard de Istiklal, uma das ruas mais movimentadas e turísticas da cidade. Embora não tenha sido reivindicado, as autoridades turcas identificaram o responsável como tendo vínculos com o Estado Islâmico. Tanto em Ancara como em Istambul, indicativos prévios de que ataques poderiam ocorrer foram registrados pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Alemanha.

A declaração de Erdogan foi interpretada como uma crítica aberta à política de países da Europa e dos Estados Unidos de se aliarem a grupos curdos que lutam no norte da Síria contra o Estado Islâmico e o regime de Bashar al-Assad.  A aliança é mal vista por Erdogan e a administração do primeiro-ministro Ahmet Davutoglu, por fortalecer as milícias curdas – entre elas, o PKK – em seu pleito por autonomia e independência. Os curdos hoje representam cerca de 15% da população da Turquia e reivindicam direitos civis e culturais no país. Na semana passada, grupos curdos em território sírio declararam o estabelecimento de uma federação de regiões autônomas no local, movimento visto com preocupação por Ancara.

A Turquia sofre com uma onda de atentados e violência nos últimos meses, consequência do conflito com militantes curdos e seu envolvimento no conflito da vizinha Síria. A relação entre autoridades turcas e os grupos curdos degringolou a partir julho do ano passado, quando um frágil cessar-fogo de dois anos foi rompido por um atentado suicida realizado por um militante islâmico na cidade turca de Suruç. O atentado atingiu voluntários que levariam mantimentos para a cidade curda de Kobani, no norte da Síria – 32 pessoas morreram e a milícia curda PKK culpou a administração de Erdogan e Davutoglu pelo ocorrido. O governo turco foi acusado de ser leniente com os jihadistas do Estado Islâmico, permitindo seu trânsito na fronteira com a Síria e até mesmo adquirindo petróleo do grupo – acusações veementemente negadas por Erdogan e seu partido AKP. Depois das críticas, a ação turca em território sírio também passou a ter como alvo o Estado Islâmico, o que explicaria a nova onda de ataques por jihadistas no país.

 

Só em 2016, a Turquia foi alvo de quatro atentados terroristas. Desde julho do ano passado, mais de 200 pessoas morreram em ataques do tipo no país. A Turquia, antes vista como um país-exemplo na região, sofre as consequências de políticas combativas em relação aos militantes curdos e dos respingos da violência do conflito sírio. Entre o fogo cruzado entre militantes curdos, jihadistas e um governo que se mostra cada vez menos equipado para lidar com tais desafios, quem paga são os civis.

* A jornalista viajou à Turquia a convite do Centro Cultural Brasil-Turquia (CCBT)

TERESA PEROSA| DE ISTAMBUL, TURQUIA

Fonte: http://epoca.globo.com/

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