Últimas notícias
  • Elogiar o movimento Hizmet antes da tentativa de golpe de 2016 não é crime, diz o TEDH O Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) penalizou na Turquia por violar o direito à liberdade de expressão de um ex-professor, afirmando que os comentários públicos a favor do movimento Hizmet feitos antes de uma tentativa de golpe em julho de 2016 não constituem um crime, informou a mídia local na terça-feira....
  • Perguntas de coletiva de imprensa para Erdoğan vazadas com antecedência por jornal O presidente turco Recep Tayyip Erdoğan recebeu uma lista de perguntas em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, que foram exatamente as mesmas perguntas vazadas anteriormente por um jornal, reforçando as alegações de que os jornalistas não são livres para perguntar ao presidente o que quiserem....
  • Conselho da Europa deve disciplinar a Turquia sobre ativista preso O Conselho da Europa disse na sexta-feira que vai lançar uma ação disciplinar contra a Turquia por se recusar a libertar o proeminente ativista e filantropo Osman Kavala, desencadeando um procedimento usado apenas uma vez na história da organização....
  • Por que a queda da moeda turca não preocupa Erdogan A moeda nacional da Turquia caiu 45% em relação ao dólar este ano e, no entanto, o Presidente Recep Tayyip Erdogan não parece ter se incomodado com isso....
  • CoE insta “fortemente” as autoridades turcas a liberar Demirtaş O Comitê de Ministros do Conselho da Europa adotou na quinta-feira uma resolução provisória "instando fortemente" as autoridades turcas a assegurar a libertação imediata do líder curdo preso Selahattin Demirtaş....
  • A crise monetária da Turquia Após a demissão do ministro das finanças e sua substituição por um lealista em 2 de dezembro, a lira turca continuou seu declínio constante em relação ao dólar, elevando suas perdas do ano para quase 50%. A moeda turca está novamente sob ataque especulativo, semelhante aos episódios anteriores em julho de 2018 e outubro de 2020. Os cortes antecipados do Banco Central da República da Turquia (CBRT) na taxa de câmbio desde setembro resultaram em um êxodo de capital estrangeiro e em uma corrida na demanda por divisas entre os investidores domésticos. Enquanto isso, os preços globais de commodities e energia permanecem altos (apesar da recente queda nos preços do petróleo), e as expectativas em relação à inflação se deterioraram significativamente, levando a taxa de câmbio TL a cair de 8,30 para 13,60 para o dólar em menos de três meses....
  • Turquia aumentará sua presença na INTERPOL, diz membro recém-eleito do Comitê Executivo A Turquia aumentará sua presença na INTERPOL aumentando seu número de oficiais de ligação na Secretaria Geral e nomeando mais candidatos para cargos superiores dentro da organização, disse na quinta-feira Selçuk Sevgel, membro recém-eleito do Comitê Executivo da INTERPOL, em entrevista à agência estatal de notícias Anadolu, informou o Stockholm Center for Freedom....
  • Papa pede por cura em um Chipre dividido, arcebispo ortodoxo ataca a Turquia Papa encontra os líderes cristãos ortodoxos de Chipre. Pede por cura na ilha dividida. Líder cipriota turco convida papa a visitar o norte. Muitos dos participantes da missa são filipinos que trabalham no Chipre...
  • Ministro das finanças da Turquia, Lutfi Elvan, demite-se em meio à crise monetária O Ministro das Finanças e do Tesouro da Turquia, Lutfi Elvan, renunciou em meio a uma forte queda da lira turca, de acordo com um decreto presidencial emitido no jornal oficial turco na quinta-feira....
  • Documentário sobre femicídios na Turquia é a indicação ao Oscar do Reino Unido Um documentário relatando os esforços dos ativistas que trabalham para acabar com a violência contra as mulheres na Turquia foi escolhido como a entrada oficial do Reino Unido para a categoria de Melhor Longa Metragem Internacional no Oscar....

Elif Shafak: A política turca do cansaço

Elif Shafak: A política turca do cansaço
março 05
14:01 2016

Antes de uma entrevista em Istambul, eu conversava com a jornalista sobre a política turca. Após 15 minutos, ela olhou para o chão e baixou a voz, como que contando um segredo: “Às vezes é cansativo demais ser turca”.

Esse esgotamento mental é causado em grande parte pela política. O presidente Recep Tayyip Erdogan e os seus correligionários optaram por uma estratégia de divisão, preferindo a hostilidade ao compromisso e a dualidade em lugar de uma cultura de convivência. Mesmo as questões mais triviais ou absurdas podem provocar um debate acalorado.

Gargalhar em público ameaça a modéstia da mulher turca? As aeromoças da Turkish Airlines devem ser autorizadas a usar batom vermelho, e, se não, qual cor pode ser permitida? Cidadãos patrióticos deveriam consumir ayran [uma bebida à base de iogurte] em vez de raki? Todas as mulheres que dirigem carros vermelhos votam na oposição?

O cansaço insuportável é particularmente acentuado entre mulheres e intelectuais liberais. Estes últimos não representam um grande número de turcos, mas são uma importante régua com a qual medir a trajetória do Partido Justiça e Desenvolvimento.

Quando o grupo chegou ao poder pela primeira vez, em 2002, os liberais apoiaram. O AKP, iniciais do partido em turco, era pró-reformas e pró-União Europeia.

Esperava-se que promoveria as liberdades civis, uma ideia animadora após três golpes militares desde 1960, cada um pior que o anterior. Mas, à medida que o partido dava uma guinada na direção do autoritarismo, os liberais foram atirados à deriva.

Na ceia de Ano-Novo, eu ouvia meus amigos liberais dizerem melancolicamente:

“Restam dois caminhos para quem não simpatiza com o AKP hoje: ou nos tornamos tolamente apolíticos, ou teremos de ser amargamente políticos. E, se você não quer ser nem tolo nem amargo, azar o seu!”.

Alguns liberais silenciaram, mas outros fazem oposição acirrada, enquanto um terceiro grupo se volta para a autocrítica.

“Nosso erro não foi apoiar acontecimentos mais pluralistas e democráticos. Foi não ver que os limites do AKP se estreitariam tanto”, escreveu a autora e socióloga turca Oya Baydar.

“Quem dizia que o AKP só fingia ser democrático e acabaria substituindo o despotismo militar por um civil tinha razão.”

Hoje, os liberais são vistos com desprezo pelo lado anti-AKP por serem brandos e ingênuos demais. “No fim das contas, não foram eles, assim como alguns intelectuais de esquerda nas décadas de 1950 e 1960 na União Soviética, os ‘idiotas úteis’ do AKP e de Erdogan?”, disse a jornalista francesa Ariane Bonzon, que cobre a Turquia e o Oriente Médio.

Entre as mulheres turcas não conservadoras -pelo menos metade dos 48% que não votaram em Erdogan na última eleição- há uma crescente preocupação com a intromissão do AKP em suas vidas privadas.

No passado, declarações machistas de políticos homens eram consideradas manifestações espontâneas. Hoje, são vistas como parte de uma campanha ideológica sistemática e sinistra que busca confinar as mulheres em seus papéis de gênero tradicionais.

Visitando o primeiro bebê de 2015, o ministro da Saúde, Mehmet Muezzinoglu, disse que “as mães não devem colocar qualquer carreira que não a maternidade no centro de suas vidas”.

A reação foi imediata. As mulheres turcas já ouviram altos funcionários do governo darem palpite sobre assuntos como aborto, cesariana, contracepção e vestuário. Protestos foram organizados em todo o país.

“Estou farta desses comentários machistas, constantemente dizendo a nós como vivermos nossas vidas”, escreveu Ayse Arman no jornal “Hurriyet”.

Quando eu falei sobre a necessidade de um movimento feminino independente e de uma nova narrativa de fraternidade feminina para superar as divisões políticas, algumas conservadoras de lenço na cabeça disseram que seria difícil trabalhar com as feministas, já que as ativistas haviam ignorado os interesses das conservadoras no passado.

Essa reação revela um dos maiores obstáculos turcos: como o passado molda o futuro. A vitimização assola a sociedade, e há um ciclo constante de retaliação que cria novas vítimas.

Após o terrível atentado no jornal “Charlie Hebdo”, em Paris, e em meio à ascensão simultânea da islamofobia e do antiocidentalismo, a Turquia poderia ter surgido como uma voz unificadora, um país islâmico moderno, democrático e pluralista, com forte tradição laica. Mas não é esse o ambiente predominante.

Erdogan culpou o Ocidente pelos assassinatos. “Como muçulmanos, nunca participamos de massacres terroristas. Por trás deles jazem o racismo, o discurso do ódio e a islamofobia. Estão jogando com o mundo islâmico, precisamos estar cientes disso.”

Quem critica o governo é acusado de não ser patriota, ou pior, de ser um peão das potências que tentam destruir a Turquia.

As vítimas mais recentes incluem a Miss Turquia 2006, Merve Buyuksarac, que foi interrogada por insultar Recep Tayyip Erdogan em sua conta no Instagram, e a jornalista e apresentadora de TV Sedef Kabas, detida pela polícia por tuitar sobre o acobertamento de um escândalo de corrupção no governo.

Um dos mais populares atores do país, Tamer Karadagli, disse: “Artistas, empresários… Estamos todos assustados”.

O cansaço persiste. A diferença entre a Turquia e o Ocidente se amplia. Se nós, os turcos, não conseguirmos encontrar uma maneira de abraçar os ideais de sociedade livre, debate aberto, cultura pluralista e igualdade de gênero, isso será não só um fracasso da democracia, mas também da imaginação e da vontade.

ELIF SHAFAK é autora, entre outros, do romance “De Volta a Istambul” (ed. Nova Fronteira).

Tradução de RODRIGO LEITE

Fonte: www.folha.uol.com.br

Artigos relacionados

0 Comentários

Nenhum comentário ainda!

Não há comentários no momento, gostaria de adicionar um?

Escreva um comentário

Escreva um comentário

Deixe uma resposta

Mailer