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Um novo relatório mostra como a repressão na Turquia está despedaçando as famílias

Um novo relatório mostra como a repressão na Turquia está despedaçando as famílias
Maio 23
17:30 2017

ISTAMBUL – Uma turca disse que sua filha foi rejeitada em uma bolsa escolar porque sua mãe era considerada como uma “terrorista” pelas autoridades. Outra mulher disse que seu filho estava morrendo de medo de ir à escola por temer sofrer bullying por causa dos problemas dela com as autoridades turcas.

“O meu filho não queria ir à escola”, contou a mulher à Anistia Internacional, de acordo com um relatório abrasador sobre supostas violações dos direitos humanos na Turquia logo após o golpe fracassado no ano passado por supostos apoiadores do movimento religioso de Fethullah Gulen. “As outras crianças estavam pegando no pé dele, dizendo que sua mãe era uma terrorista e uma traidora”.

Mais de 100.000 funcionários públicos turcos foram dispensados desde a tentativa de golpe, incluindo médicos, policiais, professores, acadêmicos e soldados. O relatório da Anistia, publicado na segunda-feira, tenta lutar com profundo impacto que o expurgo teve na sociedade turca.

O relatório, chamado “Nenhum fim a vista: Trabalhadores expurgados do setor público têm negado um futuro na Turquia”, alega que as demissões foram realizadas arbitrariamente na base de vagas “conexões com organizações terroristas” sem critérios claros. Notavelmente, disse o relatório, pouca se não nenhuma evidência específica foi apresentada para justificar a demissão de servidores públicos.

“O meu supervisor me contou que o relatório da inteligência tinha retornado negativo, e pronto”, um policial dispensado contou à Anistia Internacional em uma entrevista.

Andrew Gardner, pesquisador da Turquia na Anistia Internacional, disse ao BuzzFeed News que contando apenas os funcionários dispensados e suas famílias, pelo menos meio milhão de pessoas foram afetadas pelo expurgo. Sob o atual estado de emergência declarado em julho passado e estendido no mês passado, os funcionários não podem protestar suas demissões nos tribunais. No domingo, em uma conferência em Ancara, o Presidente Recep Tayyip Erdogan disse que o estado de emergência continuará indefinidamente.

“Como vocês podem perguntar sobre a remoção do estado de emergência?” disse Erdogan. “Ele não será removido até alcançarmos paz e prosperidade”.

De acordo com o relatório, mais de 24.000 policiais, mas de 6.000 médicos e outros empregados do Ministério da Saúde, e mais de 5.000 acadêmicos e outros funcionários do ensino superior foram dispensados. O primeiro decreto foi emitido em 22 de julho de 2016, para dispensar trabalhadores do setor público com supostos laços com o movimento Gulen, mas o expurgo desde então foi expandido para incluir os apoiadores do movimento curdo, esquerdistas e até oponentes liberais do governo.

“Algumas das mais prestigiadas universidades foram dizimadas por esses expurgos e pelo que parece um ataque motivado politicamente contra elas”, contou Andrew Gardner ao BuzzFeed News. “A curto e longo prazo, o impacto sobre os serviços públicos é uma grande preocupação. Trinta mil professores foram dispensados. Como substituir esse nível de experiência e esse número enorme de professores? Obviamento isso será impossível”.

Funcionários do Ministério da Justiça contaram à Anistia Internacional que as demissões foram realizadas baseando-se no comportamento, o que envolvia uma ação “incriminadora” concreta feita por um indivíduo evidenciando uma ligação com uma “organização terrorista”.

Mas alguns dos expurgados contaram à Anistia Internacional que foram questionados se alguém na família deles possuía ligações com o movimento Gulen. Outros servidores públicos dispensados alegaram à Anistia que seus supervisores usaram a repressão como uma desculpa para ajustar velhas contas. “Se qualquer um quiser apagar você da instituição, eles apenas dão o seu nome como um gulenista”, um ex empregado do governo local contou à Anistia.

Passaportes de trabalhadores dispensados do setor público também foram cancelados através de um decreto, removendo qualquer possibilidade de se mudar para o exterior. Um acadêmico que viajou para fora do país antes de sua dispensa disse que a Embaixada Turca em Berlim se recusou a fornecer a ela serviços consulares.

“Vastos números de pessoas foram dispensadas em um processo completamente arbitrário sem qualquer evidência ser apresentada. Isso corrói a crença na justiça e no estado de direito”, disse Gardner. “E isso é uma coisa perigosa”.

Burcu Karakas

Fonte: www.buzzfeed.com

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