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Expurgo de Erdogan bem pior que a era McCarthy

Expurgo de Erdogan bem pior que a era McCarthy
setembro 09
15:36 2016

Graças ao golpe fracassado, todos os gulenistas foram rotulados como terroristas e ofensiva contra eles se tornou um vale-tudo, pior que o que aconteceu nos EUA durante a era McCarthy, escreve Shannon Ebrahim.

O que está acontecendo na Turquia agora faz a era McCarthy nos EUA durante os anos 50 parecer um piquenique. Quando comunistas eram o alvo sob o Macartismo eles era postos em listas negras; centenas eram presos se recusassem a cooperar com as autoridades, e muitos eram obrigados a deixarem o país.

Na Turquia não são os comunistas, mas os gulenistas. Qualquer um remotamente associado com o movimento Gulen está sendo cercado e preso – não às centenas, mas às dezenas de milhares.

Até a presente data, ao menos 40.360 gulenistas suspeitos foram detidos na Turquia nos últimos meses.

Sob a repressão de McCarthy, não existiram relatos de tortura contra comunistas, no entanto relatos de tortura de supostos gulenistas em detenção estão se espalhando, de acordo com grupos de direitos humanos internacionais.

Um grupo de peritos das Nações Unidas do Escritório do Alto Comissário para os Direitos Humanos criticou os expurgos entre os militares, na mídia, educação e setores da justiça turcos. O grupo das Nações Unidas de 19 relatores especiais e três grupos de trabalho disseram que o governo turco está usando “poderes administrativos amplos e indiscriminados que afetam direitos humanos centrais”. As Nações Unidas demonstrou preocupação quanto as medidas estarem sendo usadas para atingir a dissidência e a crítica ao governo.

Na África do Sul, seguidores do movimento Gulen que dirigiam algumas das melhores escolas no país foram atacados e ameaçados por apoiadores do regime do presidente turco Recep Tayyip Erdogan.

Jornalistas turcos na África do Sul, apoiadores do movimento Gulen, foram castigados como terroristas pelo embaixador turco em uma rádio pública, sem nenhuma evidência que sustentasse essas alegações.

Tudo se transformou em uma questão de culpa por associação. É por esse motivo que o Macartismo foi notório. Qualquer um que se socializasse ou trabalhasse com comunistas nos anos 50 nos EUA era suspeito de ser um comunista e virava alvo do estado. Esse é o caso melhor documentado de culpa por associação na história moderna. A Turquia de longe ultrapassou o Macartismo.

Nos anos 50, supostos comunistas eram arrastados para audiências públicas dirigidas pelo senador Joseph McCarthy e interrogados por suas associações.

Na Turquia, não há exame público de casos individuais, e dezenas de milhares de pessoas estão definhando nas cadeias. Em linha com uma ordem governamental, 30.000 condenados foram soltos para liberar espaço para os presos políticos.

Desde a tentativa de golpe em julho, 2.740 juízes e promotores foram arbitrariamente detidos e muitos advogados estão muito temerosos de representarem os juízes por medo da culpa por associação.

De acordo com a Human Rights Watch, dezenas de advogados foram detidos por suposta associação com o movimento Gulen, e muitos advogados estão sofrendo pressão do estado para não representarem seus clientes.

Sob o sistema judicial turco não há mais uma presunção de inocência. O Alto Conselho de Juízes e Promotores criou uma lista de supostos gulenistas e emitiu uma ordem de sigilo para fazer com que sejam detidos sob o estado de emergência.

Nenhuma evidência foi produzida contra indivíduos detidos.

McCarthy também produziu listas secretas de comunistas a serem detidos, mas a maioria ao receberam ao menos a oportunidade de aparecerem perante audiências públicas.

A ironia dessa sórdida provação é que há apenas alguns anos atrás, Erdogan era um firme companheiro de Fethullah Gulen, o pregador turco, escritor e figura política que ele agora acha politicamente conveniente chamar de terrorista.

Foi o movimento Gulen que apoiou a vinda ao poder de Erdogan em 2002, usando suas extensas agências de mídia. O movimento estava convencido que Erdogan era uma democrata que protegeria os direitos e liberdades e colocaria a Turquia longe de sua tradição de golpes militares.

Nos anos que seguiram a vinda de Erdogan ao poder, ele costumava a se referir ao jornal Zaman, que pertencia aos gulenistas e tinha a maior circulação no país, de os “guardiães da democracia na Turquia”.

Quando gulenistas na mídia e no judiciário começaram a expor a corrupção de Erdogan, sua família e alguns de seus ministros em 2013, eles se tornaram inimigos públicos nº 1. E graças ao golpe fracassado, todos os gulenistas foram rotulados como terroristas e a ofensiva contra eles se tornou um vale-tudo.

Virtualmente não resta mais uma mídia independente na Turquia, com 160 órgãos de mídia que foram fechados e 108 jornalistas detidos. Nessa semana, mandados de prisão foram emitidos para ainda mais 35 jornalistas. De acordo com a maioria dos grupos vigilantes dos jornalistas, a Turquia é o pior carcereiro de jornalistas no mundo.

Se nós não contarmos a verdade sobre o que está acontecendo na Turquia, quem vai?

Shannon Ebrahim

The Sunday Independent

Fonte: www.iol.co.za

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