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Liberdades ameaçadas

Liberdades ameaçadas
maio 20
16:48 2016

Na Turquia, o Presidente Recep Tayyip Erdogan ameaça as liberdades da mídia ao ordenar intervenção estatal nos veículos que levantam a bandeira de oposição ao governo

Interventores nas redações, jornais empastelados com conteúdo tão distorcido que chegam a fechar em poucos meses. Militares controlando o acesso a sedes de grupos jornalísticos, armados até os dentes, com isolamento nas calçadas e caveirões parados nas ruas. Canais de TV que se autocensuram e, em vez de mostrarem levantes populares contra o governo, mostram documentários sobre pinguins. Não, não se trata de uma menção ao período do golpe militar no Brasil, em 1964, mas da situação atual da Turquia, localizada entre a Europa e a Ásia, e que vem sofrendo com a postura crescentemente autoritária do presidente Recep Tayyip Erdogan.

IMPRENSA esteve no país para acompanhar de perto a situação da liberdade de imprensa, a censura e perseguição contra jornalistas e intelectuais, que passaram a ser focos centrais do presidente Erdogan a partir de 2013, quando ele ainda ocupava o cargo de primeiro ministro. Um amplo caso de corrupção foi deflagrado, resultando na prisão de 52 pessoas, entre elas algumas ligadas ao primeiro escalão do governo, incluindo um filho do político. Em represália, o premiê ordenou que fossem destituídos cinco chefes de polícia que supervisionavam a operação.

As denúncias também levaram à cisão definitiva entre Erdogan e o imã Fethullah Gülen, influente líder religioso, exilado nos Estados Unidos, conhecido por ser o fundador do movimento Hizmet, com membros em diversas esferas do poder, na mídia e no judiciário. Com o rompimento entre eles, que eram aliados, Erdogan passou a acusar Gülen de ser o autor das acusações de corrupção e de ter criado um Estado paralelo, destinado a tirá-lo do poder. Os partidários de Gülen negam as acusações.

Cerco à mídia

A partir de tais denúncias, começou um cerco de repressão à mídia no país, sobretudo às alinhadas de alguma forma ao Hizmet, de Gülen. Atualmente, são 32 jornalistas presos – no ano passado eram 15 – e 24 estão sendo processados por ofensas ao presidente. Este número pode ser ainda maior, já que os dados oficiais representam apenas os jornalistas credenciados pelo governo. Muitos credenciamentos são negados.

Aproximadamente trinta veículos de comunicação, entre emissoras de rádio e TV, jornais e revistas já receberam intervenção, sendo que a maior parte deles foi fechada definitivamente em até três meses após a tomada.

“Estamos vivendo tempos muito difíceis aqui na Turquia, quanto aos direitos dos jornalistas e à liberdade de expressão. Está quase impossível fazermos nosso trabalho livremente. A restrição à liberdade de imprensa impede que a população entenda e analise os acontecimentos. Temos veículos controlados, muitos jornalistas desempregados”, explica Misket Dikmen, diretora da Associação de Jornalistas de Izmir, uma das maiores cidades turcas.

O caso mais recente dessa perseguição – e o mais surpreendente – aconteceu em 04/03 deste ano, quando o jornal Zaman, de maior circulação na Turquia, com 650 mil exemplares diários, e de oposição ao presidente, foi tomado pelo governo. Interventores passaram a administrá-lo e, de uma edição para outra, ele foi totalmente “empastelado”. Qualquer notícia que lembre algo mais ou menos crítico é derrubada. Mustafa Yilmaz, diretor de “Internacional” da publicação, afirmou que tiveram que retirar até mesmo matérias a respeito da condução coercetiva do ex-presidente Lula para depor à Polícia Federal. “Notícias sobre corrupção em qualquer parte do mundo são vetadas.”

Quando a informação da intervenção vazou, assinantes, familiares de funcionários, incluindo crianças, além de grupos ligados a direitos humanos e liberdade de expressão, realizaram um protesto em frente a sede do grupo, em Istambul, que também mantém a agência de notícias Cihan e o jornal em inglês Today’s Zaman. A manifestação foi reprimida pela polícia, que usou gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral, canhões de água, além de intimidação com armas para dispersar os manifestantes.

As forças policiais também invadiram a redação, usando de violência contra os jornalistas que trabalhavam. Desde então, a sede do grupo é mantida sob vigilância constante da polícia, que fechou a rua com grades. Suas entradas são guardadas por oficiais armados e nas rua ficam estacionados veículos, tipo “caveirão”. Quando a reportagem passou pelo local, foi acompanhada atentamente pelos policiais. As fotos do fotógrafo que nos acompanhava foram feitas da da maneira mais discreta possível, evitando expor a máquina.

“Ao atacar e buscar atacar vozes críticas, o governo do presidente Erdogan está infringindo os direitos. Veículos de imprensa livres e independentes, junto com o Estado de direito e uma Justiça independente, são os pilares das liberdades internacionalmente garantidas às quais todos têm direito na Turquia”, afirmou em comunicado, a Anistia Internacional.

IMPRENSA conversou com Mümtazer Türköne, cientista político e articulista do Zaman, que está sendo processado pelo presidente turco por insulto, após publicar um artigo em um jornal de oposição criticando a ação do governo Erdogan contra veículos de imprensa. Sob o título “O ditador deve ter enlouquecido”, o texto – mesmo sem citar Erdogan expressamente – desencadeou a ação na Justiça. “Hoje estou totalmente sem emprego. Fui demitido do Zaman sem nem ter recebido meu salário do mês”, disse ele, que pode passar quatro anos preso, caso seja condenado. Até o momento, a Justiça local registra cerca de 1,8 mil processos por ofensas ao governante.

Resistência

Embora de grandes proporções, a intervenção ao Grupo Zaman não foi a primeira realizada pelo governo da Turquia. Em outubro do ano passado, os jornais Millet e Bugün também foram tomados pelo Estado, assim como as emissoras Bugün TV e Kanaltürk.

Também identificado com o Hizmet, a história do Bugün chama atenção pela resistência da equipe, que buscou alternativas para continuar a trabalhar de forma independente, encabeçada por Mehmet Yilmaz, editor-chefe do jornal do grupo Koza Ipek quando tomado, em 28 de outubro do ano passado, sob acusação de financiamento ao terrorismo.

Yilmaz não aceitou acatar as ordens dos interventores e deixou o jornal aplaudido pela equipe. De lá, no mesmo dia, seguiu para um prédio comercial e alugou um conjunto de 90 m². Com dois computadores e um pequeno grupo de oito pessoas – todos dissidentes do Bugün – fundou o Özgür Düsunce, Livre Opinião, em tradução livre, que teve a sua primeira edição em 01/11, financiada pelo dinheiro de sua própria aposentadoria.

“Nós éramos críticos ao governo. A intervenção aconteceu apenas três dias antes das eleições. Nós defendíamos a diversidade, o pluralismo, o jornal como uma plataforma de democracia e isso irritou o governo”, disse.

O Bugün era um dos mais lidos na Turquia, com 110 mil exemplares. O Özgür conta com setenta mil exemplares. Para sobreviver, já que não recebe anúncios estatais e os privados são raros porque os empresários temem represálias do governo, a publicação depende exclusivamente de assinaturas. São sessenta mil assinantes e dez mil exemplares postos para venda avulsa. “A receita foi diminuir um pouco o tamanho e aumentar um pouco o preço. Tínhamos 24 páginas, agora temos 16. Custávamos 0,75 TL (liras turcas) e agora custamos 1 TL”, completa.

“Fomos o primeiro jornal a ser tomado à força pelo governo. Aqui, para mim, todos os 55 funcionários que temos hoje são heróis, já que, mesmo com toda a adversidade, continuamos a produzir um veículo de qualidade”.

O diretor do Özgür disse que não houve mais pressões diretamente a eles, mas que colunistas de jornais pró-governo, por exemplo, escrevem frequentemente que a publicação precisa ser fechada. “Se fecharem, pego meu casaco e abro outro jornal”, finaliza.

Os veículos que ainda não receberam intervenção ou que são alinhados ao governo vivem de auto censura. As emissoras de TV que se mostram neutras, para não haver indisposição com Erdogan, ao invés de mostrarem protestos contra o presidente, por exemplo, exibem documentários de pinguins. São agora batizados de “mídia-pinguim”.

A deputada Zeynep Altiok, que também é vice-presidente do CHP, partido e oposição ao atual governo turco, explica que é impossível falar com a população, deixar claros os desmandos do presidente, com a mídia tão controlada. “Não existem jornais independentes e nós não falamos com a população via mídia. Para vocês terem uma ideia, há dias em que saem diversos jornais com a mesma capa, a mesma manchete. A solução é estarmos presentes, irmos aos lugares conversar com as pessoas. Aqui, na Turquia, atualmente, não há democracia, Vivemos em uma ditadura.”

O que diz o governo

IMPRENSA tentou contato com o governo turco, via escritório de comunicação do primeiro-ministro, e, até o fechamento desta reportagem, não obteve resposta. À Folha de S. Paulo, Sinan Kurun, diretor da área, afirmou que não há perseguição contra a mídia. “Não existe uma perseguição generalizada contra a mídia; o Zaman e outros veículos de mídia ligados [ao líder religioso] Fethullah Gülen agem contra a segurança nacional da Turquia e tentaram dar um golpe contra o governo”.

E completou: “Ser jornalista não significa que você não pode ser processado por fazer propaganda terrorista, ser jornalista não torna ninguém livre para cometer crimes”.

Estado sem liberdades

A Turquia ocupa a posição 149 entre os 180 países citados na classificação mundial de liberdade de imprensa da ONG Repórteres sem fronteiras, atrás de Mianmar, que está em 144, e um pouco à frente da Rússia, na 152.

Já segundo a organização internacional Freedom House, os índices relacionados à liberdade de imprensa no país caíram bruscamente de 2010 a 2015. No quesito “imprensa livre”, atualmente a Turquia é classificada como “não livre”, devido à censura imposta pelo governo a sites e veículos de comunista. O site do cartunista Brasileiro Carlos Latuff é um dos proibidos no país, pelo fato de ele já ter produzido desenhos retratando o presidente Recep Tayyip Erdogan.

Posição, estratégia

Com mais de 76 milhões de habitantes, segundo o último censo, realizado em 2012, e com fronteiras com Grécia, Bulgária, Geórgia, Armênia, Azerbaijão, Irã, Iraque e Síria, a República da Turquia tem visto sua impotência crescer no cenário internacional, ao mesmo tempo que a sua democracia está seriamente ameaçada. Tal importância se deve ao fato de que é pelo país que muitos refugiados da guerra da Síria fazem a travessia pelo mar rumo à Europa, buscando entrar no continente pela Grécia. Dessa forma, esse “êxodo” se torna uma forte moeda de troca do governo local com a comunidade europeia. Só na Turquia há estimativa de haver mais de dois milhões de refugiados, que fogem dos múltiplos combates nas fronteiras, sobretudo na Síria.

Em meio a esse cenário, há também os conflitos internos, que se arrastam desde 1984, quando o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) se rebelou contra as forças turcas, em busca de direitos iguais entre turcos e curdos no país. Os combates já resultaram em diversos atentados, dezenas de mortos, bairros sitiados, mas parece estar longe de uma solução.

Por Thaís Naldoni, gerente de conteúdo, enviada especial

Fonte: www.portalimprensa.com.br

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