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Fethullah Gulen: “Não me arrependo de nada”

Fethullah Gulen: “Não me arrependo de nada”
setembro 22
15:25 2016

Fethullah Gulen, o clérigo muçulmano recluso fala sobre o golpe, sua relação com Erdogan, e se voltaria para a Turquia

Nahal Toosi

Fethullah Gulen, o clérigo muçulmano que o governo turco culpa pela recente tentativa de golpe, há muito tempo recluso, raramente concedendo entrevistas. Mas logo após as acusações contra ele, buscou limpar seu nome.

Gulen recentemente concordou em responder um punhado de perguntas por escrito do POLITICO. A conversa está aqui por completo:

Você insiste que seu movimento é pacífico, não político. Mas várias fontes me contam que o Hizmet tem um lado escuro – onde indivíduos são cuidadosamente selecionados a pente fino para ingressarem em profissões governamentais e outras relacionadas com a intenção de, no final, uma tomada de controle. Isso é verdade? Se não é, é possível que esses tipos de atividades estejam acontecendo sem o seu conhecimento?

Eu prestei serviço como pregador por quase 30 anos antes de vir para os EUA e meus amigos continuaram a publicas as minhas conversas depois que me estabeleci aqui. Existem mais de 70 livros baseados em meus artigos e conversas. É natural que no governo turco existam pessoas que compartilhem alguns dos meus pontos de vista assim como existem os que não compartilham.

Meu ensinamento sempre foi de agir dentro da lei e de uma forma ética. Se qualquer um que siga os meus trabalhos age ilegalmente ou sem ética, ou se ele desobedecem as ordens legítimas de seus superiores, isso é uma traição de meus ensinamentos e apoio completamente eles serem investigados e enfrentarem as consequências.

Se não há discriminação, as instituições governamentais refletem as cores e padrões de sua sociedade. Sabemos que nas instituições governamentais turcas existem pessoas de várias orientações políticas e religiosas, tais como os nacionalistas, neonacionalistas, maoistas, kemalistas, alevitas, esquerdistas, simpatizantes das ordens Sufi e outras. Por décadas, nenhum desses grupos pode ser transparente com suas identidades, exceto os kemalistas, devido ao fichamento político e à discriminação. E agora, lealdade a Erdogan está substituindo a lealdade a Ataturk como o critério para uma identidade aceitável.

É o direito constitucional de cada cidadão turco servir em suas instituições governamentais se estiverem qualificados para isso. Acusar qualquer um de ter um objetivo nefasto sem evidências e difamação. Se as pessoas estão com medo de revelar suas identidades por medo de represálias, é problema do regime, não delas.

Até onde meu discurso diz respeito, nunca advoguei por uma mudança de regime na Turquia. Ao contrário, 22 anos atrás, em 1994, eu falei publicamente que não haverá o retrocesso da democracia na Turquia ou em qualquer outro lugar no mundo. Isso foi tanto uma previsão quanto um comprometimento com a democracia. Publicações que agora estão aliadas com o Presidente Erdogan, criticaram-me severamente naquela época, quase me chamando de infiel. Quando os militares estavam dominando a política doméstica durante o final dos anos 90 e o começo dos anos 2000, eu fui acusado em tribunais turcos … mas nem sequer uma evidência pôde ser levantada para mostrar que eu apoiava qualquer outro regime que não a democracia.

O que você acha que o futuro guarda para o seu movimento depois da tentativa de golpe na Turquia e da demonização da sua organização feita pelos líderes turcos?

O Presidente Erdogan parece determinado a varrer todas as instituições montadas pelos participantes do Hizmet e impedir quaisquer futuras tentativas de estabelecer quaisquer novas instituições. Isso é contrário à constituição turca e a todos os acordos internacionais de que a Turquia faz parte. Mas ao menos que os líderes mundiais se posicionem com medidas efetivas contras essa caça às bruxas, não existe uma dinâmica interna na Turquia que pare o presidente.

Nossos amigos até agora defenderam seus direitos através de protestos pacíficos e nos tribunais turcos. Agora até escritórios de advocacia estão sofrendo batidas e advogados detidos. O direito das pessoas de se defenderem no tribunal judicial é tirado delas. O governo Erdogan está fazendo tudo para empurrar essas pessoas para a violência. Mas até agora eles resistiram e permaneceram pacíficos e estou confiante que permanecerão dessa forma. Alguns participantes do Hizmet deixaram o país para buscarem oportunidades de investimento ou trabalho.

Isso é uma perda triste para a Turquia mas é a única escolha para algumas pessoas. Propriedades privadas valendo centenas de milhões de dólares foram confiscadas. Espero e oro que essa loucura não dure por muito tempo.

Se o governo americano decidir extraditar você para a Turquia, você vai concordar com a decisão?

O governo americano tem uma longa história em manter o estado de direto e repeitar as liberdades. Por causa disso, eles possuem uma reputação respeitável no mundo todo. Não considero provável que irão abandonar essa tradição e minar sua reputação simplesmente porque o Presidente Erdogan está tão inflexível quanto a essa questão. Na improvável possibilidade de a questão da extradição ser decidida sobre bases políticas, eu já declarei que eles não precisam me obrigar a sair do país, eu vou comprar a minha própria passagem e irei de vontade própria sem pestanejar.

Não estou preocupado comigo mesmo mas me preocupo com a insistência do Presidente Erdogan em comprometer a relação da Turquia com os EUA e a OTAN. Tento os EUA quanto a OTAN desempenharam importantes papéis em transformar a Turquia de um regime de um único partido em uma democracia imperfeita. Se a relação da Turquia com os EUA e OTAN forem atingidas, não creio que isso beneficiará a democracia turca de alguma forma.

É verdade que você e o Presidente Erodgan já foram amigos e aliados? Se sim, o que causou as tensões entre vocês que levaram a essa situação hoje?

Muitos observadores chamaram a nossa relação de aliança, mas na verdade nunca formos muito próximos. Eu me encontrei com ele duas ou três vezes, todas antes de ele se candidatas nas eleições. Quando o seu partido se candidatou nas eleições eu já estava aqui, então de qualquer forma eu não pude votar, mas os simpatizantes do Hizmet apoiaram o seu partido através de seus votos e suas vozes na mídia.

A razão para esse apoio não é complicada. Ao participarem das eleições em 2002 eles [o Partido da Justiça e do Desenvolvimento de Erdogan] prometeram impulsionar a Turquia adiante em sua campanha pela filiação à União Europeia através da implementação de reformas democráticas; acabendo com a corrupção pública, e o fichamento político pelo governo e suas medidas discriminatórias. Eu e meus amigos apoiamos eles por causa dessas promessas.

Ao se aproximarem as eleições de 2011, eles prometeram uma constituição democrática que seria rascunhada por civis sem medo de generais militares. Mas após vencerem aquela eleição, começaram a reverter cada reforma democrática que haviam implantado anteriormente. A constituição democrática foi primeiramente condicionada sob a inclusão de uma presidência executiva e então completamente esquecida.

No passado, eu de fato apoiei a ideia de um sistema presidencial, se fosse para usar os EUA, França ou outros países como modelo, onde existe uma fiscalização e meios de controle sobre o presidente. Mas a proposta do Sr. Erdogan era similar a um regime de sultanato. Eu não poderia apoiar um sistema desses com uma consciência limpa.

O Sr. Erdogan exerceu pressão sobre mim e os simpatizantes do Hizmet para que apoiássemos publicamente sua ideia de um sistema presidencial. Ele aumentou a pressão ao apoiar alternativas financiadas pelo governo

às instituições do Hizmet e então começou a ameaçar fechar essas instituições do movimento Hizmet. Se aceitássemos sua exigência e nos tornássemos leais a ele, estaríamos agora usufruindo os favores do governo. Mas nos negamos e estivemos enfrentando sua ira pelos últimos três anos.

Isso pode ser chamado de o preço da independência. É de fato um alto preço, mas não me arrependo de nada e não acredito que qualquer um de meus amigos se arrependa de alguma coisa. Minha única tristeza é que o país continua a sofrer porque ninguém pode se opor suas ambições sem restrições.

Se você tivesse a oportunidade de falar agora com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e o presidente americano Barack Obama, o que você diria a eles?

Eu não acho que o Presidente Erdogan consideraria que valesse a pena falar comigo. No passado, fiz tentativas de me aproximar deles através de cartas sobre o fichamento e discriminação exercidos pelo governo, ou sobre a questão de como lidar com a situação atribulada dos cidadãos curdos. Mas nenhuma dessas tentativas foi levada a sério. Agora, apenas oro a Deus que dê prudência a ele para que assim ele não comprometa o futuro dessa grande nação.

Eu testemunhei os esforços do Presidente Obama em manter a relação com a Turquia apesar dos desafios de se lidar com um líder autoritário. A relação EUA-Turquia é muito importante para os dois países mas mais vital para a Turquia. Eu ficaria triste ao ver essa relação se deteriorar. Ao mesmo tempo, as ações domésticas do Presidente Erdogan estão minando valores democráticos essenciais dos EUA e OTAN.

Estou preocupado que enquanto se tenta manter o relacionamento, a base em que essa relação está edificada esteja se deslocando. De acordo com reportagens do mídia que vejo, grupos radicais violentos como o ISIS estão recebendo um apoio implícito dentro da Turquia, como se está lidando com as preocupações com a segurança a respeito do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) está causando baixas entre os civis e sofrimento entre os cidadãos curdos e as ambições do Presidente Erdogan de se tornar um herói nacional está ameaçando de ainda mais desestabilizar a região. Há um crescente anti-americanismo e a mídia sob o controle do Presidente Erdogan está desempenhando um papel de liderança nisso.

Como manter a relação viva enquanto se evita que a Turquia se transforme em outro regime autoritário do Oriente-Médio é uma tarefa muito sensível e espero que o competente time de peritos do presidente leve ele na direção certa ao lidarem com esse desafio.

Fonte: www.politico.eu

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