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Dinâmicas Básicas do Movimento Gülen – 2

Dinâmicas Básicas do Movimento Gülen – 2
março 17
12:50 2016

4. As dinâmicas do espírito da devoção

Este princípio deveria ser visto como uma continuação da discussão anterior com relação ao nível de dinâmica moral atribuída a “viver pelos outros”, pelo qual, indivíduos se devotam a Deus e a outras pessoas. Vamos trabalhar este conceito. Conforme sabemos, a origem do amor, em todas as suas formas, emana do Criador, Todo Poderoso. Todos os tipos de amor e afeição, assim como todos os deleites e belezas, são manifestações de Seus belos nomes. A mesma manifestação é melhor expressa pelos famosos versos turcos, “Amar a todas as criaturas por causa do Criador” (yaratığı severiz, Yaratan’dan ötürü), escritos por Yunus e celebrados no Oeste como humanismo muçulmano. Esta é uma manifestação tão ampla que engloba todos os campos da existência e relações humanas. Esta frase é a mensagem “humanista” mais concisa do Islã. Pode-se dizer que para Gülen, este princípio é mantido vivo e reproduzido no espírito da devoção. Quando compreendemos as noções de “Criador e criatura,” entendemos a característica básica da afeição muçulmana como distinta do humanismo filosófico que não tem relações com o divino. Pois, no Islã, na origem de todo amor, está a realidade do Criador. Se não fosse pela manifestação de Seus belos nomes e atributos, a humanidade seria desprovida de afeição, compaixão e bondade. De acordo com o Islã, portanto, as pessoas deveriam dedicar todo amor e afeição ao Criador, antes de mais nada. Sem este foco, uma pessoa não pode desistir de seus próprios prazeres para devotar seu amor ou afeição a outra. O espírito e sentimento de devoção a Deus, portanto, confere a motivação básica para se servir à humanidade. O espírito de devoção produz uma dinâmica moral que energiza todo amor, toda relação, todo sacrifício e todo serviço nele contido:

A característica mais notável daqueles que se dedicaram à outorga do consentimento de Deus e ao ideal de amar e ser amado por Ele é que eles nunca esperam por nada – material ou espiritual – em troca. Coisas como lucro, riqueza, custo, conforto etc., coisas às quais as pessoas deste mundo prestam muita atenção, não têm muito significado; elas não têm valor, nem são consideradas critério.

Para os devotos, o valor de seus ideais transcende aos ideais mundanos de tal forma que é quase impossível desviá-los de sua busca – o consentimento gratuito de Deus – e leva-los a outro ideal. Na verdade, completamente despidos daquilo que é finito e transitório, devotos passam por tal transformação em seus corações, ao se voltarem a Deus, que são mudados porque não reconhecem outro objetivo senão o seu ideal. Desde que se devotam completamente a fazerem pessoas amarem a Deus e serem amadas por Ele, dedicando suas vidas à iluminação de outros – mais uma vez, devido ao fato de eles terem conseguido orientar seu objetivo nesta única direção, que de certa forma, contribui para o valor deste ideal – eles evitam pensamentos divisores e antagonistas, como “eles” e “nós”, “outros” e “nossos”. Estas pessoas, também, não têm problemas – explícitos ou ocultos – com outras pessoas. Em contraste, tudo que pensam é como podem ser úteis para a sociedade e como podem evitar disputas com a sociedade da qual fazem parte. Quando eles detectam um problema na sociedade, agem, como líderes espirituais em vez de guerreiros, liderando pessoas à virtude e espiritualidade elevada, se abstendo de qualquer tipo de dominação política ou pensamento de dominação.

O que compõe a profundeza destes espíritos devotos é o conhecimento, o uso deste conhecimento, um entendimento forte e sadio da moralidade e suas aplicações em cada aspecto da vida, uma virtude fiel e a consciência de sua indispensabilidade, entre outros fatores. Eles buscam refúgio em Deus contra fama e a propaganda fria, baseada em interesse, e contra atos e feitos ostensivos, coisas que, na verdade, não prometem nada a seu futuro – ou seja, sua vida após a morte. Além disso, vivendo de acordo com seus princípios, eles, incessantemente, se esforçam para liderar aqueles que os assistem e imitam a viverem em reverência aos valores humanos sublimes. Ao fazer tudo isso, tais pessoas não esperam nenhum interesse ou bondade de ninguém, e elas tentam evitar qualquer tipo de interesse ou benefício pessoal; elas o evitam da mesma forma que evitariam um escorpião ou uma serpente. Afinal, sua riqueza interior tem um poder centrípeto que não permite quaisquer atos de propaganda, vanglória ou ostentação. Seu comportamento amigável, também um reflexo de seu espírito, é de tal qualidade que fascina e faz pessoas de discernimento segui-las.

Por esta razão, estes devotos nunca desejam se vangloriar, anunciar ou fazer propaganda sobre si mesos, nem tem a ambição se serem conhecidos ou apreciados…

Devotos não vivenciam um vazio em suas vidas mentais e raciocínio graças a este entendimento de uma direção unificada. Ao contrário, eles se mantém abertos à razão, ciência e lógica, tomando-as como pré-requisitos para suas crenças. Tendo estado nas profundezas da proximidade de Deus, uma proximidade que depende do mérito do indivíduo, e num oceano como a unidade divina, seus desejos mundanos e paixões corporais tomam uma nova forma (prazer espiritual como resultado do consentimento de Deus) com um novo padrão, um novo estilo. Assim, devotos podem respirar o mesmo ar que os anjos no topo da vida espiritual enquanto falam aos seu semelhantes terrestres, cumprindo os requerimentos lícitos da vida na Terra. Por isso, se considera que estes devotos estejam ligados ao mundo presente e futuro. Rua relação com o mundo presente se deve ao fato de aplicarem e obedecerem a forças físicas. O que os liga ao próximo mundo é o fato de avaliarem cada problema à luz de sua vida espiritual e de seus corações. Quaisquer inibições na vida mundana impostas pela vida espiritual não necessariamente ocasionam um completo abandono da vida mundana; é por esta razão que estas pessoas não podem desprezar o mundo completamente. Ao contrário, elas sempre estão no centro, em vez da periferia, do mundo e o governam. Esta postura, no entanto, não é para, ou em nome do mundo, mas em nome de se obedecer às forças físicas e um tentativa de conectar tudo ao Além.

Aliás, esta é a maneira de se manter o corpo em sua própria estrutura e o espírito em seu próprio horizonte; é o caminho para levar uma vida sob a liderança do coração e do espírito. A vida corpórea finita e restrita deve ter a extensão que a corporeidade merece, enquanto a vida espiritual, sempre aberta à eternidade, deve buscar a infinidade. Se alguém pensa apenas pensamentos supremos e transcendentes, se alguém leva uma vida como o Criador quer, se alguém considera iluminar aos outros algo tão fundamental quanto a própria vida, e se alguém sempre busca o zênite, então ele, naturalmente, se torna um praticante de um programa supremo e, até certo ponto, limita seus desejos e paixões pessoais…

Dado que esta devoção é incondicional e sincera, é provável que Deus concederá Suas bênçãos a este tipo de pessoas. Quanto mais uma pessoa tenta agradar a Deus, e quanto mais incondicionalmente elas estão ligadas a Deus, mais probabilidade há de que sejam objeto de conversas supremas. Cada pensamento, palavra e ato de tais pessoas se tornam uma atmosfera luminosa no próximo mundo, uma atmosfera que também pode ser chamada “a face sorridente do destino.” Estas pessoas afortunadas, que enchem suas velas com os ventos de sua sorte, navegam com bênçãos especiais em direção a Ele, sem se prender a nenhum lugar. Vale a pena ver o que o Alcorão mostra como um retrato destas pessoas:

Homens (de grande distinção) que não se deixam absorver nem por negócios nem por trocas (nem quaisquer outras preocupações mundanas) louvam Deus, recitam a oração e pagam o tributo dos pobres – temendo o dia em que os corações e os olhares forem subvertidos – para que Deus os recompense pelas suas obras mais belas e lhes conceda ainda mais de Sua graça. Deus cumula quem Lhe apraz sem medida. (Nur 24:37-38) [11]

5. Sacrifício, fidelidade e lealdade

Uma das dinâmicas mais notáveis do Movimento Gülen se baseia em sacrifício (fedakarlık) e fidelidade (sadakat). Estes conceitos, obviamente, não são reservados a este movimento. Sempre houve uma ênfase comum sobre estes conceitos na tradição muçulmana. Como tentamos enfatizar em seções anteriores, a razão de as incluirmos como conceitos centrais do Movimento Gülen é que o próprio Gülen define estas características com um penetrante senso de profundidade e com significado rico e estratificado. Ele motivou as sensações das pessoas ao ponto de ter criado um novo sistema e campanha de sacrifício. Quando falamos de sacrifício ou fidelidade no Movimento Gülen, não falamos, simplesmente, de solidariedade e ajuda. Gülen prescreve, como em outros critérios de piedade, uma noção aberta de sacrifício que alcance os limites extremos da humanidade e noções morais. Quando o problema é piedade ou serviço à humanidade, ele nunca está satisfeito com os limites normais. Ele deseja ampliar a beneficência, lealdade e fidelidade humana. Por isso, Gülen, frequentemente, usa metáforas de “um cavalo que corre até seu coração estourar” e “uma pomba-brava.” O cavalo em seu sistema simboliza os heróis do amor que correm dia e noite em seu serviço; a pomba-brava simboliza ideais altos e eminentes. A partir disto, podemos deduzir que seus heróis são todas as pessoas idealistas:

Sacrifício é uma das importantes características da pessoa que ensina. Aqueles que não podem, ou não se arriscam ao sacrifício desde o começo nunca poderão ser uma pessoa de causa. Pessoas que não têm uma causa, não podem ser bem-sucedidas. Sim, aqueles que estão prontos a deixar tudo para trás quando necessário, suas posses, vida, família, posição social, fama etc., coisas que muitas pessoas desejam e estabelecem como objetivos de vida – que sua causa, em algum momento, alcançará seu ápice é certo e inevitável.

Assim, o Profeta, a paz esteja com ele, instigou, começando a partir de si mesmo e, então, a partir daqueles em seu circulo próximo, o espírito do sacrifício. Ele o praticou e demonstrou, durante sua vida, a todas as pessoas que se devotaram à sua causa. Por exemplo, Cadija, que Deus se agrade dela, dispôs de tudo que tinha por esta causa sagrada, mesmo sem a solicitação do Profeta, seu marido. Ela pagou por todos os gastos de banquetes oferecidos a habitantes pagãos de Meca para lhes transmitir a mensagem do Islã. Tendo sido uma das pessoas mais ricas da Meca pré-islâmica, esta famosa mulher não tinha dinheiro nem para comprar sua mortalha quando faleceu.

Além gastar seus recursos pelas pessoas da causas, a migração para outros lugares – i.e., deixar para trás suas casas quando necessário, deixar tudo que conhecem para serem capazes de praticar sua religião, pensamento, liberdade e humanidade – é um ato de sacrifício na busca pela graça de Deus. Por exemplo, Abu Bakr, Umar, Uthman e Ali (que Deus se agrade deles), ricos e pobres, jovens e velhos, homens e mulheres – quase todos eles migraram, em algum momento. Ao migrarem de sua terra natal, eles deixaram toda sua riqueza para o povo cruel e opressivo de Meca, levaram consigo apenas comida o suficiente para a viagem. Sim, como migrantes (Muhajirun) se sacrificaram para transmitir e representar sua causa. Eles, sinceramente, acreditavam e se devotavam à vontade de Deus. Em contrapartida, as pessoas que os ajudaram (Ansar), em Medina, mostraram grande sacrifício ao recebe-los e aceita-los. Sim, os Ansar receberam seus irmãos e irmãs de Meca, apesar de serem pobres e ganharem seu pão apenas da lavoura; eles se comportaram de maneira, extraordinariamente, nobre.

As pessoas que comunicam fé e liderança, hoje, deveriam agir da mesma maneira, praticando o sacrifício representado pelos Companheiros do Profeta, que foram o modelo do zênite de uma sociedade em quase todos os aspectos da vida. Caso contrário, … estas pessoas não podem ser bem-sucedidas em comunicar a fé. [12]

Lealdade (vefa) é uma das rosas em um ambiente amigável. É incomum e, até, impossível ver lealdade em uma atmosfera de inimizade. A brisa pacífica da lealdade sopra em torno daqueles que compartilham os mesmos sentimentos, pensamentos e imaginação. Inimizade, ódio e inveja não dão à lealdade um instante para tomar fôlego. Em um ambiente de amor e generosidade, a lealdade cresce, enquanto em um ambiente de ódio, diminui.

Alguns definem fidelidade como a integração do ser humano com sua alma. Isto é apropriado, porém, incompleto. A verdade é que é muito difícil falar de lealdade com relação àqueles que não têm vida espiritual. Falar a verdade e manter a sua palavra ou juramento estão conectados à profundidade espiritual da pessoa. Hipócritas não podem impedir a si mesmos de mentir e enganar; eles violam a própria palavra e nunca são sérios sobre suas responsabilidades. Esperar lealdade de pessoas que não têm uma dimensão nobre, ilustra desatenção e ingenuidade.

Quem quer que confie em alguém sem lealdade, se torna um canalha. Quem quer que embarque em uma viagem com eles, se perde. Quem quer que o respeite como líder, lamenta o tempo todo:

Esperava por sua lealdade
Encheu meus olhos com pesar
E deixou um pé sem se curar.

Uma pessoa merece confiança e ascende através da lealdade. Se uma casa é construída com lealdade, ela se mantém firme e se torna cheia de vida. Uma nação manteria suas virtudes com este sentido nobre. Um estado manteria sua reputação apenas com esta noção, aos olhos de seus cidadãos. Se a lealdade é perdida em um país, é inútil falar da maturidade da pessoa, ou de uma casa que promete segurança ou um estado confiável e estável. Em tal país, as pessoas suspeitam umas das outras; lares são perturbados; o estado é desfavorável a seus cidadãos; e tudo é estranho ao outro, mesmo que estejam lado a lado. [13]

6. Representando e comunicando a fé

Hoje, há inúmeras escolas de pensamento e movimentos políticos, filosóficos e ideológicos, cada um deles vocaliza uma grande causa que afirmam ter herdado do passado. Entre eles, há alguns que, apesar de seus discursos incluírem argumentos úteis para humanidade, não são mais do que slogans glorificados. Não se importam em se referir a nenhum critério ou realidade social para averiguar se seus pensamentos são factíveis ou não, e se são articulados por verdadeiros representantes. Apesar disto, qualquer ideia, pensamento ou movimento tem aspectos teóricos e práticos. Praticabilidade é tão importante quanto a ideia e a teoria em si. Neste ponto, as pessoas que levam estas ideias à prática entram em questão. Seu mérito e habilidade de representar a teoria determinam o sucesso daquele movimento. Representação (temsil) inclui a praticabilidade de opiniões e ideias, conforme se relacionam à credibilidade de seus detentores. Nenhum movimento pode obter sucesso sem ter pessoas suficientes que representem sua causa. O fato de que o grau de sucesso pode mudar de acordo com alguns critérios não altera a validade deste fato.

Gülen enfatiza a representação desde o início. Cheio de sinceridade, excitação e ação, ele cita passagens das vidas dos Profetas e de seus seguidores para destacar a necessidade de se transformar pensamento em ação. Ao recontar suas histórias, personalidades distintas, paciência, resiliência e sinceridade, Gülen destacou a importância deste princípio como primordial para mobilização do Movimento. Para ele, se você não tem a habilidade de dar o exemplo, a sociedade não o levará a sério e você não terá nada a dizer à sociedade. Gülen interpreta este princípio como integridade interna-externa:

Aqueles que desejam reformar o mundo devem, primeiro, reformar a si mesmos. Se eles desejam liderar aos outros a um mundo melhor, devem purificar seu mundo interior de ódio, rancor e inveja e adornar seu mundo exterior com virtude. As palavras daqueles que não conseguem controlar e disciplinar a si mesmos e que não refinaram seus sentimentos podem parecer atrativas, no princípio, contudo, mesmo que, de alguma forma, consigam inspirar a outros – e, algumas vezes, conseguem – os sentimentos que despertam, em breve, definharão. [14]

Quando os corações não ouvem ao Islã cuidadosamente, não fazem suas vozes serem ouvidas; se as palavras ditas não são representadas na conduta, então sua voz se emudece e não inspira nada aos corações. Palavras não somente ditas, mas também conduzidas instilam excitação nos corações e alcançam todas as aptidões além de quaisquer distâncias. [15]

Crentes devem acreditar sinceramente no coração; eles devem se comportar como se vissem a Deus a todo instante e sentir a reverência de ser observado por Ele. Para verdadeiros fiéis, sua conduta deve ser suficiente para falar sobre sua fé a outras pessoas e convencê-las; não deveria ser necessário a criação de remediadores. Seu sono, discurso, olhar e postura deve ser suficiente. Pessoas que os veem devem ser capazes de dizer, “este ser humano sério não deve se comportar com frivolidade; esta face inocente não deve mentir.” Um dos maiores problemas, hoje, é a inabilidade se se produzir uma atitude como esta, levando a uma falha em se agir de acordo com a maturidade interna, tanto individualmente quanto socialmente. [16]

A grande mágica dos apóstolos de Jesus era sua sinceridade e a credibilidade de suas maneiras. A razão mais importante pela qual os amigos do último Profeta conseguiram transmitir a luz da fé para o mundo inteiro, e pela qual eles encontraram uma recepção amigável, foram seus modos muçulmanos. Séculos depois, alunos de Bediüzzaman exemplificaram sinceridade e cordialidade similares, como se eles pudessem enxergar a Deus (ihsan). Nos nosso tempos, contudo, muçulmanos se expandiram em quantidade; mas perderam muito do espírito interno do Islã. Enquanto possuímos razão e lógica, e enquanto a ciência e tecnologia estão mais avançadas do que nos tempos de nossos ancestrais, não temos o mesmo coração que eles tinham. Estamos desprovidos da verdadeira graça de sentir a Deus em cada batida do coração. Nosso batimentos cardíacos deveriam ter uma manifestação do lado de fora, como um relógio que tem um mecanismo interno que é, simultaneamente, transformado em ação nos ponteiros do lado de fora a cada segundo. O verdadeiro centro da vida é o coração. [17]

Gülen atribui a postura social crônica do mundo muçulmano a uma deficiência em representação:

A deficiência do mundo muçulmano não está na ciência, tecnologia ou riqueza. Devo admitir que tudo isso tem alguma influência; no entanto, a razão primária por trás de nossa deficiência é a conduta e a imensa qualidade do coração que deveria direcionar todas as nossas ações. Nossa deficiência se refere à imagem muçulmana. Por causa desta deficiência, não temos, hoje em dia, pessoas como Sadreddin Konevi, Rumi, Naqshiband, Hasan Shadhili, Ahmad Badawi, Imã Rabbani, Mevlana Halid, ou Bediüzzaman. Vivemos longe destas pessoas espiritualizadas; nosso mundo está desprovido de suas cores. O Islã é percebido pelos outros quando assistem às nossas maneiras. Enquanto dependemos do Sagrado Alcorão para orientação, o Sagrado Alcorão depende de pessoas sinceramente devotas para expressar todo seu potencial. Mesmo que o Alcorão seja mantido nas prateleiras mais altas, em capas de veludo, se não for representado por pessoas, então, não pode falar por si mesmo. Desde sua revelação, o Alcorão tem sido um guia para a humanidade na forma de um espírito materializado. Contudo, como pode-se ver, algumas vezes, sua voz soou alta, outras vezes, silenciou, como se seus lábios estivessem fechados e ele estivesse trancado em câmaras secretas. [18]

Em suma, quando a representatividade era forte, a comunicação da fé, também, era forte:

Sem representantes conscientes e determinados, o Sagrado Alcorão passa por uma situação patética. O livro perfeito só pode promulgar sua mensagem através de um time perfeito de representantes. Infelizmente, porque o mundo, hoje, carece de tais representantes, muitos que estudam o Islã são forçados a ver aqueles que falham como se representassem a verdade. Um perfeito time de representantes, um time que se devota completamente a comunicar o nome de Deus e a se tornar parte da religião, seria capaz de ilustrar adequadamente os caminhos pelos quais o Alcorão pode encontrar expressão. O princípio básico não é intermediar ou ficar no caminho da pessoa que tenta encontrar a Deus sozinha; na verdade, nosso objetivo é, simplesmente, prover um exemplo firme de fé verdadeira. Cada um de nós deveria tentar fazer as pessoas dizerem, “Não há sinal de mentira em sua face.” Devemos mostrar às pessoas a realidade e fazer as pessoas pensarem, “Se a sua religião instila tão profunda verdade e moralidade, então, sua religião não deve ser falsa.” [19]

Pessoas que consideram a “comunicação da fé” sua tarefa podem aprender muitas lições com a vida do Profeta. A única maneira de afetar as pessoas é, primeiro, praticar a mensagem. Se você quer explicar a alguém sobre o que é quebrar em prantos por Deus, então, você deve acordar no meio da noite e chorar até molhar o seu tapete de oração. Somente assim, você verá suas palavras terem um tremendo impacto, no dia seguinte. Caso contrário, você poderia ser esbofeteado na face, como no verso, “Por que pregais o que não praticais? (As Saf 61:2). [20]

[Fiéis que comunicam a mensagem] devem ter o mesmo comportamento que adotam entre outras pessoas, também, quando estão entre si, e devem ser sinceros em todas as suas ações. Eles não devem se contradizer em seu comportamento pessoal e social. Suas noites devem ser tão claras quando seus dias, e seus dias devem ser tão lúcidos a ponto de iluminar o Sol. Qualquer erro que cometam por causa de descuido deve fazê-los gemer. Eles devem se sentir envergonhados de mencionar a oração de manhã se não fizeram a oração tahajjud [21] à noite. Eles devem chorar até purificarem o pecado que cometeram com seus olhos. Qualquer comida proibida ou duvidosa que comerem deve fazer seus estômagos doerem por muitos dias, e eles devem sentir qualquer desvio como as chamas do Inferno.

Reflexões e pensamentos que não são praticados pelos indivíduos não são bem-vindos, não importa quão atrativos ou necessários pareçam. As palavras devem ser recebidas, primeiro, no coração da pessoa que as proferem. Se o pensamento não está estabelecido no coração, então é impossível esperar que seja aceito pelos outros. [22]

Expor as dinâmicas internas do Movimento Gülen e interpretá-los de maneira sistemática não se limita a esta análise. Quando olhamos o discurso de Gülen mais de perto, observamos outros conceitos como humildade (tevazu) e medéstia (mahviyet); irmandade (kardeşlik) e amizade fraternal (tefani); benevolência material-espiritual (himmet) e aconselhar uns aos outros sobre o que é bom (hayırhahlık); conexão com Deus (Allah’la irtibat) e se tornar um com suas reverências e orações (evrad ve ezkar ile bütünleşme); abandonar a própria prosperidade espiritual (füyuzat hislerinden feragat); ação positiva (müspet hareket) etc. Nós tratamos apenas de algumas características para dar exemplos. Este trabalho, de forma alguma, é uma análise profunda. No entanto, eu acredito que, mesmo assim, pode nos dar algumas dicas sobre o Movimento Gülen e seu discurso básico. Antes que alguém possa comentar sobre as ações do Movimento na sociedade, estas dinâmicas básicas deveriam ser entendidas e levadas em consideração. O mesmo se aplica a outros movimentos islâmicos, sejam eles analisados de uma perspectiva muçulmana ou através de métodos sociais. As dinâmicas internas e espirituais de um movimento dão vida a sua existência social a cada momento; elas espalham aos capilares de indivíduos, à existência social e identidade do movimento como um todo. Ideais e realidades sociais podem se contradizer, mas isto, normalmente, surge de desequilíbrios entre pensamentos e ações. Algumas vezes, ações vêm antes de pensamentos e ideais, e outras, pensamentos e ideais levam a ações. A observação de tais desequilíbrios podem levar a algumas críticas injustas sobre o movimento, ou a algumas acusações ou descrições falsas.
Isto acontece com frequência quando um movimento islâmico critica e avalia outro. Desenvolvimentos temporais podem moldar o discurso de um movimento em sua forma externa com base em valores flutuantes. Isto pode levar algumas pessoas a especularem que um movimento se desviou de seus princípios ideais/internos. O que fica evidente, contudo, é que valores variáveis são necessários para flexibilidade e para expansão ocasional. Valores variáveis não podem determinar princípios ideais, mas podem afetar o movimento quando uma nova expansão é necessária. Obviamente, mudança não é algo que todo movimento pode desejar o tempo todo e movimentos, nem sempre, precisam se renovar ou expandir de seu ambiente local. Com frequência, isto leva estabilidade a alguns movimentos, e esta estabilidade, também, deve ser questionada. Eu defendo, contudo, que valores variáveis, também, mostram uma capacidade de adaptação à uma sociedade em mudança e uma capacidade de produzir novas relações e valores. Um movimento que não possui esta capacidade, certamente, desaparecerá. Espero que minhas observações sobre “constantes e variáveis” não sejam mal interpretadas. A razão pela qual exponho esta preocupação é porque este problema aponta um terreno escorregadio. Além do mais, isto se associa com observações soltas e desatentas e interpretações que observamos em ambientes políticos. Leituras liberais, frequentemente, sugerem que qualquer mudança e desenvolvimento é inevitável. Nossa intenção, aqui, é simplesmente discordar de uma abordagem que sugira uma possibilidade sociológica para transformações sem uma base de parâmetros, uma que idolatre todos os prazeres e paixões carnais egoístas. Toda interpretação deve olhar valores constantes e dinâmicos mais de perto. Frequentemente, isto é negligenciado na análise de movimentos. Leituras emocionais e ideológicas trivializam a tudo e não consideram preocupações humanas ou morais.

Enes Ergene

Notas de Rodapé
[11] Gülen, Toward a Global Civilization of Love and Tolerance (Para a uma Civilização Global de Amor e Tolerância), pp. 100–103.
[12] Gülen, İrşad Ekseni, pp. 188–189.
[13] Gülen, Buhranlar Anaforunda İnsan, pp. 38–39.
[14] Gülen, Pearls of Wisdom (Pérolas de Sabedoria), NJ: The Light, Inc., 2006, p. 105.
[15] Gülen, Işığın Göründüğü Ufuk, p. 4.
[16] Gülen, Sohbet-i Canan, p. 96.
[17] Ibid., 98–99.
[18] Ibid., pp. 99–100.
[19] Ibid., pp. 103–4.
[20] Gülen, Sonsuz Nur, Vol. 1, p. 244.
[21] Oração voluntária feita de madrugada.
[22] Gülen, İrşad Ekseni, pp. 134–136.

Ergene, E. (2008). Tradition Witnessing Modern Age: An Analysis of the Gulen Movement (Tradição Testemunhando a Idade Moderna: Uma Análise do Movimento Gülen) (pp. 175-186). Somerset, NJ: Tughra Books.

Fonte: http://pt-hizmetmovement.blogspot.com.br

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